Imagem ilustrativa da sede do Governo de Minas Gerais - Crédito: Gil Leonardi/Assessoria de Imprensa - Gov MG
Por Frederico Madureira (*)
A comunicação de um governo deve refletir as suas prioridades estratégicas, assim
como um canal de alertar a população para temas relevantes onde necessita de
engajamento e atenção. A partir de uma visão política, também pode-se dizer que a
comunicação cria uma narrativa sobre a visão de sociedade que se deseja construir
assim como a imagem que o governo deseja fomentar de si próprio.
A partir dessa ótica, apresenta-se abaixo uma análise dos gastos de comunicação do
governo Zema em Minas Gerais para o período janeiro a setembro de 2025.
Disponibilizados diretamente no site da SECOM em arquivo PDF, transposto para o
excel em mais de 6 mil linhas e classificados em tipos de gasto, a análise a seguir
revela a natureza da comunicação do governo e com quem fica o dinheiro de mídia.
Desde já, uma ressalva: o valor em si não é a questão principal e sim quais são as
prioridades. Em relação ao orçamento público, o gasto mineiro com comunicação está
em linha com os demais Estados. Das despesas fixadas na Lei Orçamentária Anual
(LOA) de 2025 no total de R$ 137,5 bilhões, o governo destinou R$ 137,3 milhões
para a área de comunicação social, o que representou 0,1% do total.
A análise a seguir contempla a real execução dos contratos firmados durante os nove
primeiros meses de 2025, a partir dos relatórios trimestrais de fornecedores
disponíveis no site da Secretaria de Comunicação Social do Governo de Minas Gerais,
em cumprimento à Lei número 12.232.
De janeiro a setembro de 2025, o Governo de MG desembolsou R$ 118,5 milhões em
campanhas de comunicação. Deste montante, R$ 97,7 milhões (82,5%) foram
destinados a diversos veículos de comunicação e R$ 20,8 milhões (17,5%) do valor
total gasto ficaram com as agências de publicidade pela intermediação do serviço e
produção das peças publicitárias.
A distribuição da verba de comunicação ao longo do ano não é linear, variando de 3%
em janeiro até 18% em Agosto, com maior gasto acumulado no terceiro trimestre do
ano que representou 48% do gasto total de 2025.
Sazonalidade da distribuição da verba de comunicação do Governo de MG –
janeiro a setembro/25
O valor gasto em comunicação também é classificado por município e/ou região,
sendo o primeiro no ranking Belo Horizonte (44%), Minas Gerais (20%), São Paulo
(5%), Varginha (3%), Nacional (3%), Rio de Janeiro (2%).
As 10 maiores Localidades (Janeiro a Setembro de 2025) – verba recebida pelos
veículos de comunicação
Ao analisar os canais de comunicação utilizados, verifica-se que 7 canais
representaram 81% do gasto, restando outros 28 canais com 19% da verba utilizada.
Canais tradicionais como Televisão e Rádio estão no topo do ranking e representaram
30% e 21% do gasto total. Em seguida, aparecem Painel Eletrônico (13%), Produção
Eletrônica (6%), Rede Social (5%), Plataforma Digital (3%) e Internet (3%). Jornal, que
já foi muito relevante no passado, ocupa a décima posição no ranking, com
faturamento de apenas R$ 2,1 milhões ou 2% do valor total.
Ranking dos canais mais utilizados – janeiro a setembro/25
A partir dos dados divulgados, também é possível saber exatamente qual veículo de
comunicação recebeu qual quantia. No total, constam de janeiro a setembro de 2025,
712 veículos, sendo que 75 representaram 80% da verba total. Os cinco primeiros no
ranking revelam um mix de veículos tradicionais e novas empresas de comunicação:
Globo Comunicação e Participações (R$ 15,3 milhões), Televisão Sociedade
(conhecida como Record Minas, R$ 6 milhões), Eletromídia (R$ 3 milhões), Rádio
Itatiaia (R$ 2,4 milhões), Google Brasil (R$ 2,3 milhões).
A lista abaixo apresenta os 50 veículos que mais receberam verba de comunicação do
governo, já descontando o valor pago para as agências de publicidade. Dentre os
veículos tradicionais mais conhecidos, verifica-se que Estado de São Paulo e Estado
de Minas não aparecem dentre os 50 maiores, ocupando as posições 68° (R$ 254 mil)
e 108° (R$ 153 mil), respectivamente.
Em relação ao Grupo Globo, ressalta-se que a sua participação real deve ser
analisada a partir da soma de diferentes CNPJs, como Globo Comunicação e
Participações (R$ 15,3 milhões), Eletromídia (R$ 3 milhões), Editora Globo (R$ 1,5
milhões), totalizando R$ 19,9 milhões ou 20% do valor total.
Ranking dos veículos de comunicação
Em relação aos conteúdos divulgados nesse período, constam 138 campanhas, sendo
que 16 representaram 80% do valor total. As mais relevantes foram NF Mineira (R$
11,9 milhões), Investimentos MG (R$ 11,7 milhões), Minas de Oportunidades (R$ 10,2
milhões) e Aula de Eficiência (R$ 9,3 milhões).
As 10 maiores Campanhas (Janeiro a Setembro de 2025)
Outra forma de revelar as prioridades da comunicação é a partir de uma análise
comparativa. Abaixo explicitamos 3 temas bem trabalhados pelo governo que refletem
a imagem do Governo-empresa e Estado Eficiente versus 3 temas com menor
investimento, apesar da sua relevância para a sociedade mineira e do aumento da
repercussão na sociedade mineira nos últimos anos.
As Campanhas de Arrecadação via Nota Fiscal Mineira, Atração de Investimentos e
Aula de Eficiência totalizaram R$ 32,9 Milhões, enquanto as campanhas de Violência
Sexual contra Crianças e Adolescentes, Prevenção de Incêndio e Violência contra
Mulher somam míseros R$ 527 mil no período em questão.
Contraste de Prioridades da SECOM-MG (jan-set/25)
Ainda na análise das campanhas executadas, ao classificá-las em categorias, fica
evidente o valor elevado destinado para ‘Atração de Capital’, bandeira do Governo
vigente que analisaremos a seguir, superando temas como ‘Saúde e Educação’.
Distribuição do valor por categoria das campanhas
Os relatórios disponibilizados também permitem compreender a distribuição dos
valores recebidos pelas agências de publicidade. Como dito acima, um percentual do
gasto do governo com comunicação fica com as agências de publicidade, mais
precisamente 17,5%. O compilado do período em questão aponta para a divisão dos
valores pagos entre 9 empresas, sendo as três primeiras: Perfil (R$ 5 milhões),
Filadélfia (4,4 milhões) e Cálix (R$ 3,3 milhões).
Valores recebidos pelas Agências de Publicidade
Diante das análises acima, surgem diversas perguntas: quais deveriam ser as
prioridades da comunicação do governo de Minas? Por que a agenda econômica
domina a pauta? Essa é a melhor forma de distribuir a verba de comunicação? Quem
se beneficia do modelo atual?
2. ENTRE A VITRINE E O ABISMO
3. POR UMA AGENDA PÓS-MARKETING
Os dados acima serão atualizados trimestralmente a partir dos relatórios da SECOM. Mais
que esmiuçar os números e apontar inconsistências, a análise crítica é o primeiro passo
para a construção de uma nova agenda de comunicação para Minas Gerais.
Minas Gerais é um Estado onde a comunicação permeou os momentos críticos da sua
história. Teria a comunicação servido para fomentar o espaço público ou transformar este
num locus de ação privada? Como proposta de uma nova agenda que precisa ser discutida
por toda a sociedade, é necessário ter ousadia para propor algumas mudanças:
Enfim, uma nova agenda de comunicação para Minas Gerais não pede apenas um novo ‘layout’ ou um slogan mais criativo. Pede uma inversão de prioridades: menos ‘Estado-Empresa’ na vitrine, mais ‘Estado-Serviço’ no território.
Em última análise, a comunicação do governo mineiro parece servir para anestesiar as
tensões de um Estado em crise fiscal enquanto constrói uma vitrine reluzente para o
mercado e para o eleitorado nacional.
Minas Gerais não precisa de mais ‘aulas de eficiência’ gravadas em estúdios caros; precisa
de uma comunicação que reconheça suas fraturas, que irrigue o jornalismo independente da capital e do interior, que prepare o cidadão para os riscos sociais e climáticos que a
propaganda insiste em ignorar.
Enquanto a publicidade oficial continuar sendo o espelho de um Estado Narciso Gerencial,
os mineiros continuarão pagando a conta de um espetáculo do qual ele não é o
protagonista e sim um mero figurante diante de um cenário de esvaziamento do espaço
público.
(*) Frederico Madureira é economista. Este artigo faz parte das reflexões
críticas do autor sobre as transformações econômicas, sociais e políticas de Minas
Gerais.
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