O jornalismo, para melhor servir à sociedade, precisa manter independência, ou seja, preservar a imprensa como uma instituição acima de qualquer suspeita. Principalmente numa democracia. No Brasil, todavia, mesmo após o início da chamada “redemocratização”, em 1985, prevalece o abandono desse princípio.
No Governo Bolsonaro, veículos assumiram claramente dois papéis durante e após a fase aguda da pandemia da Covid-19. De um lado, em minoria, o bloco do apoio cego ao negacionismo e ao ato criminoso do então presidente, Jair Bolsonaro (PL-RJ), de negar socorro à população. Isso contribuiu claramente para os mais de 700 mil óbitos pelo vírus.
Do outro lado, em maioria, oposição ao bolsonarismo e em campanha pelo socorro da população. Passada a pandemia, sofreu a vingança da escassez das verbas públicas de publicidade federal.
Com a vitória (2022) de Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP), os veículos de comunicação inverteram de lado na relação do alinhamento editorial ao Planalto. Além disso, os adesistas aceitaram embarcar com Lula na campanha precoce das eleições de 2026. Isso já na posse do petista, em 1º de janeiro de 2023.
O estado da arte dessa sintonia aparece nas manchetes das edições impressas de sexta (31/07) dos três principais jornais do país: O Globo, Folha de S. Paulo e Estado de S.Paulo: “Mendonça autoriza PF a investigar Lulinha por tráfico de influência“. Cabe perguntar: coincidência? Difícil de se acreditar. Mas ficou de bom tamanho para Lula, pois os três jornais optaram por abandonar o impacto político da notícia. Bastava trocar “Lulinha” por “filho de Lula”.

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Silêncio da imprensa no uso da máquina
Neste 3º mandato, o petista governa em cima da pauta da reeleição. Nunca foi incomodado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Em momento algum, por exemplo, o TSE apontou antecipação do calendário eleitoral e/ou de uso da máquina pública nesse expediente. O Tribunal é um misto de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Superior Tribunal de Justiça (STJ). O peso é do STF, onde o Governo do PT tem maior bancada com folga.
A imprensa calou também, ou seja, seguiu a Justiça Eleitoral.
Nas asas da FAB, campanha até na Ásia
Em junho de 2024, Lula se valeu, indiretamente, da figura de Jair Bolsonaro em seu projeto deste ano. Ao justificar uma nova candidatura, obsessão pessoal, disse que seria para evitar ameaças de “trogloditas” e de “um fascista” voltarem ao poder.
Nas viagens pelo país e exterior apresentou outro formato: “impedir o retorno da extrema-direita ao poder”. Há um ano, dentro da Petrobrás, reforçou o que não conseguia esconder.
E repetiu a cantilena na sexta (31/07), na convenção do PT do Ceará: “Enquanto eu viver, a extrema-direita não voltará a governar este país”. Foi mais um palanque em viagens a bordo do Airbus da Força Aérea Brasileira (FAB – Ministério da Defesa) que atende à Presidência da República. O jatão é bancado pelo dinheiro público para os serviços em agendas de Estado.
Em outubro de 2025, Lula se superou. Gastou querosene de aviação da quota da FAB e cumpriu agenda de Estado em Jacarta, na Indonésia. Mas usou a viagem para dar força ao seu projeto e do PT. “Vou disputar um quarto mandato no Brasil“, declarou no país asiático em 24 de outubro (dia local). Dois dias depois, porém, alertado pelo Itamaraty, se desculpou pela campanha em outro país.
O calendário eleitoral deste ano só permite campanha a partir do dia 15 próximo. Mesmo assim, ontem (01/08), em Salvador (BA), na convenção do PT regional, Lula pediu “votinho”. De pronto, entre os jornais regionais importantes, apenas Estado de Minas, na edição eletrônica, apontou o descumprimento.
Hoje (02/08), outros veículos, também nas edições eletrônicas, entraram no assunto. Mas ingressaram em carona com a notícia de pedido de votos pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), em Santa Catarina. O filho do ex-presidente é, pelas pesquisas, o principal adversário de Lula.
Pauladas exemplares da imprensa em Zema
O tratamento da imprensa, entretanto, com outros ainda pré-candidatos foi muito diferente do dedicado a Lula. Quando se descobriu, por exemplo, que Romeu Zema (Novo), então governador de Minas Gerais, usou avião do governo em agendas políticas, foi uma semana de noticiário desfavorável. Todos os veículos, principalmente O Globo, origem da notícia, apontaram uso da máquina pública.
Toma lá dá cá
Desde a posse de Lula, a imprensa privada, em geral, assumiu ser quase a porta-voz do Palácio do Planalto. Elegeu o declaratório dos releases como lead para tudo. Faz o modo burocrático melhor que Agência Brasil.
É histórico o papel de busca de proximidade dos donos dos veículos com governos. Mas com o atual as raízes estão profundas. O aparelhamento foi bem além das páginas dos jornais e revistas e das grades do jornalismo nas TVs e Rádios. Chegou nos espaços reservados aos comentaristas, tidos com suposta autonomia.
A postura crítica e independente, desejada numa democracia, foi contaminada pela expectativa do retorno da propaganda oficial. Com esse vale tudo por verbas, a imprensa desrespeita a parte da sociedade que preserva sua massa crítica.
Como esperavam os donos da comunicação, os veículos nadaram em milionárias publicidades federais, além das contas das estatais. No período 2023-2026, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) gastou mais de R$ 1,1 bilhão, em faturas da propaganda do Governo, apontou matéria do Estadão do dia 27/06. Destacou a enorme expansão neste ano eleitoral.
Confira aqui os gastos anuais contabilizados pelo Portal Transparência do Governo Federal, da Controladoria-Geral da União (CGU). Mas apenas com a chamada “Publicidade de Utilidade Pública“.
Campanha velada na tragédia do RS
Essa triste toada pelega no convívio com o Poder ficou notória na tragédia das inundações sobre o Rio Grande do Sul, na virada abril-maio, outono de 2024. Por vezes, acima da função pública de socorrer as vítimas, o Planalto priorizou agendas e viagens, principalmente de Lula, com propósitos nas eleições daqui a 63 dias, em 04 de outubro.
Em despacho e cerimônia em São Leopoldo (RS), o então chefe da Secom, deputado Paulo Pimenta (PT-RS), foi deslocado para a Secretaria Extraordinária de Apoio à Recuperação do Rio Grande do Sul. Sem perder o status de ministro de Estado.
Pimenta, conforme o Diário Oficial, seria o coordenador das ações do Governo Federal no estado atingido. Na prática, porém, um interventor do Governo do PT. A missão estava cristalina: enfraquecer mais o governador do Estado, Eduardo Leite (PSDB), e buscar espaços para fortalecer Lula na campanha da reeleição.
Esse pano de fundo foi praticamente ocultado pela imprensa nas análises dos propósitos do Planalto.
Defesa de ocasião da “soberania”
O maior embate de Lula com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (Republicano), tem como cortina a política dos tarifaços. Em paralelo, o petista deu carona a discursos populistas. Aplicou mesmos recheios dos generais da ditadura 1964-1985: apelos nacionalistas e à paixão do povo pelo futebol.
Trump incomodou o Governo do PT em duas vias. Em uma, na aplicação do tarifaço contra o mundo, em defesa indústria norte-americana. Na outra, a mexida geral na geopolítica. Nesta última, a Casa Branca criou uma janela exclusiva para o Brasil.
Mas enquanto outros países negociavam alíquotas alfandegárias menores, o petista preferiu só atirar pedras.
O PT optou por atropelar o Itamaraty e impôs o comportamento partidário. No momento em que Trump assumiu a defesa (quase que de Estado) de Jair Bolsonaro, Lula não conseguiu dar credibilidade ao discurso pelo respeito à “soberania nacional”. O republicano queria evitar a condenação do ex-presidente. O antecessor do petista foi acusado e condenado, no STF, em 2025, por liderar a “trama golpista“, em dezembro de 2022. Além disso, foi envolvido diretamente nos atos de vandalismo na Praça dos Três Poderes, em Brasília, em 08 de janeiro de 2023.
A “ingerência” de Trump na política brasileira merecia, sim, ser repudiada. O presidente brasileiro clamou respeito à “soberania” dos povos em qualquer parte do planeta. Discursou assim também no plenário da Assembleia-Geral das Nações Unidas (ONU).
Ingerências domésticas esquecidas
Nessa linha, todavia, Lula aplicou doses de amnésia às suas próprias atitudes. Ele abriu rusgas no cérebro de Trump ainda nas eleições dos EUA, em 2024. Naquela época, declarou apoio à adversária do republicano, Kamala Harris (Democrata). O petista torceu de público por uma vitória da então vice dos EUA. Argumentou (entrevista à televisão TF1, da França) que vitória dela “seria o caminho mais seguro para fortalecer a democracia”. Repetiu a preferência em outras ocasiões.
Lula também torceu, em 2023, pela derrota do atual presidente da Argentina, Javier Milei. O atual chefe da Casa Rosada venceu Sergio Massa, com quem o petista se alinhara. No mesmo ano, no Paraguai, o conservador Santiago Penã, derrotou Efraín Alegre, o da preferência declarada do petista.
Lula dá pitacos também em eleições pela Europa, mas poupa ditaduras amigas do PT, como de Vladimir Putin (Rússia) e Xi Jinping (China).
O Governo PT foi a única democracia complacente com a manipulação do então ditador da Venezuela e amigo de Lula, Nicolás Maduro, nas eleições de 2025. Apenas fez pirotecnia ao enviar até Caracas seu assessor internacional, o ex-chanceler, Celso Amorim.
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