Economia

Vallourec tingiu BR-040 com lama do descaso dos políticos

A Vallourec Mineração Ltda, do Grupo Vallourec (siderúrgica de tubos), no “transbordamento” em barragem de rejeito de minério de ferro, com cara de rompimento, no sábado (08/01) exibiu o de sempre. O rejeito da Mina Pau Branco, em Brumadinho, encobriu a BR-040, em Nova Lima. Acidente tratado quase como natural em Minas Gerais.

Portanto, pouca novidade no acidente, pois, lama de minério de ferro tem sido tinta padrão nos descasos das mineradoras em parceria clara com autoridades púbicas. Autoridades nas três instâncias: Prefeituras, Estado e União.

A pergunta é elementar: por que, após as tragédias em Mariana (Samarco) e Brumadinho (Vale), Vallourec seguiu na mesma, às margens e a montante em trecho da segunda maior rodovia federal em Minas?

Nota Vallourec – Reprodução

O “transbordamento” deslocou lama e rejeito de minério, além do material que arrastaram na encosta da serra. Inundou e atravessou a rodovia. Seguiu destruindo bioma e assoreando cursos d’água. Por sorte, não causou feridos nem mortos. Naquele local, próximo ao trevo para Ouro Preto, a rodovia apresenta tráfego intenso, inclusive aos sábados, domingos e feriados.

Fato, entretanto, é incontestável: a mina da Vallourec tem potencial para reprisar tragédias, como as das minas Germano (05/11/2015) e Córrego do Feijão (25/01/2019) – 19 e 270 mortes.

Leia AQUI como ALÉM DO FATO abordou tragédias nas minas de Mariana e Brumadinho.

A BR-040 separa as barragens da Mina Pau Branco e o Condomínio (prédio à esquerda, no alto)
com AlphaVille Lagoa dos Ingleses – Crédito: Reprodução/Redes Sociais

Notas rotas da Vallourec e Prefeitura de Nova Lima

Nas primeiras horas, a Vallourec tratou de minimizar. A Defesa Civil de Nova Lima (da Prefeitura) seguiu fiel. As notas, um tanto parecidas, em seguida ao desastre, afiançavam: “não houve rompimento da barragem”. Mas “transbordamento”.

O “transbordamento” de rejeitos de minério de ferro da Mina Pau Branco – Crédito: Reprodução/Redes Sociais

Porém, vale perguntar: quais foram os volumes de materiais do “transbordamento” e na BR? Além disso, a velocidade na travessia da rodovia?

A mineradora, entretanto, omitiu no comunicado que o rejeito inundara e obstruíra a BR-040. E mentiu: “Como consequência, a BR-O40 foi de imediato interditada, pela administração da rodovia”. Quem “interditou”, primeiro, foram muitas toneladas do material sólido e lama que desceram da Mina Pau Branco.

Só depois vieram os cones e viaturas atravessadas pela concessionária. A lama já tinha feito estragos em veículos.

Vallourec contrariou a pick-up no mar de lama

Todavia, à medida em que as informações precisas e imagens davam luz à opinião pública, mineradora e Prefeitura afunilaram para algo mais real. Azeitaram para a hipótese de perícias apontarem naquele “transbordamento” riscos em proporção de um rompimento. Mas, depende do espírito dos técnicos da Agência Nacional de Mineração (ANM), sucessora do velho Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM).

Caminhonete ficou ao sabor da correnteza da lama na BR-040 – Crédito Imagem Redes Sociais

As imagens que circulavam na internet, desde antes das 10h30, no sábado, entretanto, emparedavam a mineradora. Desmontavam, ao menos, dois quesitos de peso na nota: “interdição” imediata e omissão para gravidade do acidente. Entretanto, isso foi afogado por imagens que inundavam as redes sociais: pick-up navegandodesgovernada no turbilhão da correnteza de lama, na rodovia, e tomadas áreas da mina.

Bombeiros silenciaram

E surpreendeu também a postura branda do Corpo de Bombeiros (CBMG). Indiretamente somou no empenho da Vallourec e da Prefeitura, de minimização do ocorrido. A corporação, via seu porta-voz (vídeos e entrevistas) não alertou para o risco potencial da extração de minério naquele ponto.

Comparativo: na BR-040, o número de veículos em trânsito é infinitamente maior que na acanhada via municipal que limitava com a extinta Mina Córrego do Feijão. Entre os mortos na tragédia da mina da Vale estavam pessoas que simplesmente transitavam fora da área.

Vallourec ainda quis mandar a fatura para chuva, natureza. Ou seja, ignora que esteja localizada em ponto crítico.

Catequização: emprego, biscoito e telhado da igreja

Mas, é comum em territórios de mineração encontrar quem defenda ferrenhamente a Vallourec. Pesam a favor a companhia as compras no comércio vizinho, empregos, troca das telhas das igrejas dos lugarejos, patrocínio das festas populares etc. Essa relação vem desde de décadas, desde quando a extração era da Mannesmann Mineração. No final dos anos da década de 1990, o Grupo Mannesmann (mineração, siderurgia e reflorestamento) foi comprado pelo Grupo Vallourec.

Essa relação, entretanto, não retira a Mina Pau Branco do mapa dos riscos com potencial para tragédias. Mesmo que as pessoas relacionadas tentem ignorar.

Portanto, será inaceitável passar a borracha quando a Vallourec limpar as pistas, retirar sua lama, refizer a sinalização e cobrir buracos.

Ela dará passagem ao tráfego. Porém, isso não estabeleceo aceitável como normal.

Desprezo como ponto final

O fecho da nota da Vallourec não serve (é inaceitável) como ponto final. Diz: “A Empresa já acionou os órgãos competentes e está trabalhando em conjunto com as autoridades para minimizar os transtornos ocorridos. De acordo com as apurações preliminares, não o registro de vítimas”.

Como assim, “… minimizar os transtornos…”? Será, então, que, em situações mais graves, “minimizar os transtornos” se resolveria pagando curativos, velórios, dando moradias e indenizações? Então, estariam empresas de mineração liberadas para os seus “transtornos”?

Parece que prefeituras, Governo de Minas e União dizem “sim”.

Essa conta do “transbordamento” na Mina Pau Branco é de fácil liquidez, para o caixa do Grupo Vallourec. E, talvez, a frieza da nota fosse a mesma em situação mais grave.

As pessoas nos entornos dos “territórios” de mineração precisam, entretanto, abrir os olhos para um ditado popular, simples e muito repetido: “Vida só dá uma safra!”.

Rejeito da Mina Pau Branco desceu para BR-040. Mas, por sorte, não causou vítimas – Crédito: Reprodução/Redes Sociais

R$ 11 bilhões fermentam omissão de Zema

O Governo de Minas continua, portanto, vesgo por gratidão quando o assunto é mineração. Mas, não seria diferente. Romeu Zema embarcou numa administração quebrada, mas ganhou caixa extra de R$ 11 bilhões (fevereiro de 2021) da Vale. Além disso, a mineração é contribuinte de peso na receita tributária estadual. Leia no link “Após ser contra, Zema festeja repasse do Acordo da Vale aos municípios”.

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Nairo Alméri

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