Empresários do agro, Governo e desperdícios

  • por | publicado: 14/09/2023 - 14:46 | atualizado: 18/09/2023 - 09:39

Desperdícios de safras no país começam na lavoura. Imagem ilustrativa - Crédito: Arquivo da Sociedade Nacional de Agricultura/SNA/Redes Sociais

O Brasil, como em todo ano, seguirá com desperdícios de alguns milhões de toneladas na safra de grãos de 2022/2023. Abrangerá toda cadeia, da colheita, armazenamento e transporte nos modais rodoviários, ferroviários, fluviais e manufatura. Essas etapas deixam pelos caminhos alguns bilhões de reais.

Estudo dentro do Governo indica perdas de 37 milhões de toneladas na safra passada.

Isso é histórico e sabido. Persistem porque são também a proteína de palanques políticos dos governos. Mas, atende igualmente às amareladas agendas recorrentes na Associação Brasileira de Agronegócios (Abag), Confederação de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) etc. (ver adiante). As entidades são boas em festas para governos.

Desperdícios também para balança comercial

Há, entretanto, uma fatia maior na contabilidade consolidada dos prejuízos de safra no eterno déficit da capacidade armazenagem. Acabar com ele mataria outro tema recorrente do empresariado. E dele tira enorme partido a imprensa especializada, que recebe até prêmios – principalmente as reportagens do gênero catastróficas.

Em maio a agência Reuters publicou que o Brasil contabilizaria R$ 30,5 bilhões em perdas na safra 2022/2023. O fato gerador tinha raiz no eterno déficit na capacidade estática de armazenagem de grãos.

A agência, sustentada em suas fontes, apontou a causa no binômio safras recordes-incapacidade de armazéns. O prejuízo, entretanto, apareceria no fechamento dos contratos de venda. As negociações imediatas (sem espera das oscilações favoráveis das cotações) dos grãos elevam ofertas no mercado internacional. Com isso, reinam os indesejáveis de “prêmios negativos” nos recebimentos.

Os prejuízos, por essa incapacidade, seguem então, a consagrada lei de mercado da oferta e procura.

Na ocasião, capacidade estática de armazenagem publicados pela Reuters, com fonte em dados apresentados pelo escritório Cogo Inteligência em Agronegócio, era de um déficit de 36,8% para esta safra. Estava assim:

  • – Previsão da safra 2022/203 (excluído café): 313 milhões de toneladas;
  • – Déficit em armazenagem: 124 milhões de toneladas.

Incapacidade persiste próxima dos 40%

Mas o cenário de safra hoje é outro. Na semana passada (06/09), por exemplo, a estatal Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) divulgou o 12º Levantamento de Safra de Grãos. O país colherá 322,8 milhões t. Se fechar assim, serão 50,1 milhões t a mais que 2021/22, ou seja, expansão de 18,4%.

A Conab, ligada ao Ministério da Agricultura, entretanto, só apontou para aquilo que interessa ao Governo: safra recorde. Desperdícios não subiram à tribuna. E pouco se importou, por exemplo, se o Governo Lula (PT) colhe um recorde de plantio em época de Governo Bolsonaro (PL).

O empresário do agronegócio, por sua vez, muda de par e pula do samba-canção para o xaxado (forró) em piscar de olhos!

Conab, em verde-amarelo, deixou no vazio uma análise para o fator incapacidade estática do país em armazenagem. Está acima de um terço da safra. Isso iria, claro, estragar o discurso na Esplanada dos Ministérios, principalmente no Palácio do Planalto.

Todavia, os dados do Governo, na própria web da companhia, mostram capacidade estática do país para receber 197.117.992 t. Nessa infraestrutura, 176.420.085 t em granel sólido, e, 20.607.907 t, convencional.

As informações oficiais da Conab, portanto, o déficit de armazenagem de grãos estaria, neste mês, em 39%.

Fica, porém, estudo noticiado em julho envolvendo a própria Conab, indica dado alarmante: 15% do milho, soja, arroz e trigo produzidos em 2022 foram pedidos.

Não é por falta de dinheiro

Dinheiro não falta, nem nas linhas diretas do Tesouro Nacional nem por outras vias, como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Da União, o Plano de Safra 2023/2024 anunciado (27/06) pelo Governo é de R$ 364,22 bilhões. Ficou, portanto, 26,8% acima do anterior e, se cumprido, desfila como o maior dos planos do país.

O recurso para infraestrutura de armazenagem está lá, claro. Entretanto, insuficiente. Então, desperdícios seguirão sua trajetória.

O BNDES abriu a porteira do campo, no ambiente do Plano de Safra, com anúncio de R$ 38,4 bilhões. Com a alma no palanque, o banco federal de fomento subiu a plaqueta de aumento de 52%. Nada informou, todavia, sobre inadimplências e perdas fora dos programas federais.

Mas, nem Governo, no anúncio do Plano de Safra, nem BNDES abordaram desperdícios (falta de qualidade) e fiscalização na aplicação de recursos, principalmente na relação ambiental. Ou seja, seguiram os mesmos de sempre.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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