Juiz se solidariza com dr. Drauzio Varella que foi atacado por abraçar condenado

O juiz Luiz Carlos Resende e Santos e o dr. Drauzio Varella,. fotos site TJMG e YouTube

O juiz da maior Vara de Execuções de Minas Gerais, Luiz Carlos Rezende e Santos, postou, em rede social, carta dirigida ao dr. Drauzio Varella. A iniciativa foi tomada depois o dedicado médico oncologista sofreu ataques nas redes sociais por ter abraçado um condenado sem saber do crime que cometeu.

No domingo (1), dr. Drauzio apresentou reportagem no Fantástico (TV Globo) sobre as precárias condições das detentas transgêneras e travestis em presídios masculinos. Em determinado momento, ele dá um abraço na trans Suzy, que estava sem visitas há oito anos. Ela está presa por estuprar e matar menino de 9 anos. Isso causou muita controvérsia e até críticas do presidente Jair Bolsonaro e seus seguidores.

Em vídeo publicado na terça (10), o médico pediu desculpas para a família da criança, “que foi envolvida involuntariamente na história”. No vídeo, ele disse que a revelação do crime cometido pela detenta foi uma surpresa tanto para o Brasil quanto para ele. Drauzio faz trabalhos em cadeias há mais de 40 anos e já informou, em livros e reportagens, que seu papel é de médico e não de juiz.

“Abraçar não é perdão, mas oferta de reconstrução humana”

Em sua defesa, o juiz Luiz Carlos disse que também já abraçou muitos condenados que, talvez, não merecessem aos olhos dos críticos. “Meu gesto não era de perdão e, sim, de oferta de reconstrução humana. Aliás, é o que desejamos”, disse. “O gesto é de doação, de entrega, e não provoca necessariamente a obrigação de alguma retribuição”.

Como juiz, ele disse que deseja a recuperação da pessoa de quem cometeu o crime. “Do contrário, o juiz será o carrasco, e faz que o Estado jogue dinheiro público fora para transformar a sociedade, cada vez mais perversa, com criminosos violentos e perigosos”.

Leia a seguir a carta do magistrado ao dr. Drauzio

Carta aberta ao Dr. Drauzio Varela.

Prezado Doutor,

Comecei a conhecer os presos, quando aos 28 anos de idade, assumi minha primeira comarca. Seguindo orientações de minha mãe, logo que cheguei à cidade, visitei o pároco e dali, fui à cadeia, a pé mesmo, pois era bem pertinho.

Na prisão, senti aquele cheiro (que, depois de muitos anos, soube que era de gente apodrecendo) e vi as latrinas antigas e sujas junto as camas dos prisioneiros. Parecia que só eu estava incomodado com aquilo, nem mesmo os presos e os demais que ali estavam, ou me acompanhavam, estranhavam aquele ambiente.

“Resolvi olhar a situação de cada preso”

Curioso, ao retornar ao fórum, resolvi olhar a situação de cada um dos presos, e verifiquei que, dentre eles, havia um que estava condenado a seis anos de prisão por um hediondo crime. O rapaz estava a seis meses do livramento condicional, e sempre esteve preso na pequena cadeia em regime fechado. Ele tinha a época exatos 21 anos 6 meses e 2 dias de idade. Portanto, praticou o crime 2 dias após alcançar a maioridade penal.

Pensei muito sobre a situação, e como o moço não tinha qualquer outro registro desabonador e estava próximo de conquistar a liberdade, o autorizei a trabalhar no fórum, remir sua pena e receber pelo menos um banho de sol duradouro para colorir a pele, antes de voltar para casa, na zona rural daquela comarca no Campo das Vertentes em Minas Gerais.

Com o tempo, ele perdeu um pouco a timidez e trabalhou bem com o que sabia. Limpou o quintal, ajudou em pequenas tarefas domésticas, podou o pomar, arrumou a cerca da divisa, além de substituir algumas telhas do telhado do centenário prédio que abrigava o fórum.

“Não sabia sequer assinar o próprio nome”

Mal se ouvia a voz dele. Passados alguns meses, procurou-me pedindo para que autorizasse sua mãe, um dia por semana, almoçar com ele no fórum. Assim, começaram a retomar a convivência depois de tantos anos afastados pelas grades.

Passado o período, na audiência de livramento condicional, dois dias após o “criminoso” completar 22 anos de idade, descobrimos algo terrível. Embora preso por quatro anos, aquele rapaz seria solto, mas não sabia sequer assinar o próprio nome no termo que lhe devolveria a liberdade.

Sinto o choque que recebi naquela tarde até hoje. Alguém custodiado pelo Estado, por tanto tempo, e ao final recebe só o castigo, e a obrigação de carregar para sempre o preconceito de ter passado pela prisão.

Assim, fui descobrindo, que a forma de cumprimento da pena, que busca punir e recuperar, faz com que a segunda parte quase nunca seja lembrada.

“Voltar melhor do que entrou na prisão”

Dr. Drauzio, quando houve a tragédia do Carandiru, eu era ainda estudante, e fiquei muito impressionado, sobretudo com as fotografias que revelavam os horrores das mortes das pessoas, as quais se viam depositadas em corpos nus dentro de dezenas de caixas em meio a verdadeiro mar de sangue.

Devo dizer-lhe que sempre gostei de seus artigos e comentários sobre suas andanças nas prisões. O cuidado dispensado aos presos, a atenção quanto a saúde deles, e seus bons conselhos para que voltem ao convívio social melhores do que chegaram, deixam-me encantado.

A minha vida, desde o caso que lhe relatei, no início de minha carreira, trouxe-me para próximo do drama do sistema penal, e hoje, passados quase vinte e dois anos, sou Juiz da maior Vara de Execuções de Minas Gerais.

Nas visitas às penitenciárias ficava, a princípio, curioso em saber o que os presos fizeram com suas vítimas. Mas o tempo ensinou-me que, em relação à conduta com a vítima, o Estado já tinha dado a resposta aplicando a pena ao malfeitor. O que me restava, portanto, era tentar fazer algo para aquele criminoso, a fim de que ele se transformasse em uma pessoa melhor do que chegou à prisão.

“Não podemos julgar o criminoso novamente”

Para tanto deveria ter em mente que não poderia julgá-lo novamente pelos fatos que o levaram até ali. Ora, se já sentenciado, não poderia experimentar nova pena pelos mesma conduta. Assim, como juiz de execução, procuro não me contaminar com o passado do apenado e tento motivar a sociedade a contribuir com sua parte para que ele receba tratamento mínimo de dignidade, na esperança da reconstrução de seus valores.

Foi assim que conheci muitos “Drs. Drauzios Varella”, profissionais de todas as áreas que têm interesse único no ser humano por detrás das grades, e não no criminoso que o levou aquela situação.

A lição da misericórdia não tem qualquer similaridade com indulgência, pois é um ato de puro respeito ao ser humano, feito à semelhança do próprio criador.

“Juiz não é carrasco”

Amar ao próximo é algo incondicional, e nada tem a ver com desprezo à vítima. Mas o que está na minha responsabilidade é o condenado, e o dever do juiz é fazer com que ele cumpra a pena, e deixe a prisão melhor do que quando entrou. Do contrário o Juiz será o carrasco, e faz que o Estado jogue dinheiro público fora para transformar a sociedade, cada vez mais perversa, com criminosos violentos e perigosos.

Sabe Dr. Drauzio, por vezes abracei pessoas em cumprimento de pena e senti que aquele gesto era o que podia oferecer para tentar despertar no preso a existência de um ser humano em seu interior.

Talvez, tenha abraçado alguma pessoa que alguém ache que não mereça, mas meu gesto não era de perdão, e sim de oferta de reconstrução humana. Aliás, é o que desejamos. O gesto é de doação, de entrega, e não provoca necessariamente a obrigação de alguma retribuição.

“Não deixe de oferecer o abraço”

Assim meu caro, não deixe de oferecer seu aperto de mão, dedo de prosa ou abraço ao apenado. Isso serve apenas para demonstrar que ainda estamos vivos, e nada tem a ver com nossa profissão.

Ser Médico ou Juiz, quando agimos como em seu exemplo, não nos faz só melhores, nos faz o que somos em essência, muito acima de nossas profissões, e semelhantes a todos os filhos de Deus: seres humanos.

Abraço respeitoso.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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