Vale terá político para frear Lula: Paulo Hartung

  • por | publicado: 14/03/2023 - 00:48 | atualizado: 16/03/2023 - 18:53

Desembarque de minério de ferro da Vale no Porto Qindgao (China): Foto: Divulgação

Acionistas da Vale S.A. adotarão, na próxima Assembleia Geral Ordinária (AGO), em abril, um escudo político para neutralizar eventuais investidas do Governo do PT na gestão da companhia. Isso em função do histórico de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na Presidência da República. No passado, a mineradora trombou com a linha ideológica do petista. Por conta disso, então, registrou retrocessos em sua governança corporativa aos olhos de especialistas internacionais (ver abaixo).

Na quarta-feira (08/03), o Conselho de Administração aprovou nomes indicados pelo Comitê de Indicação e Governança (CIG) para formação do próximo CA. Entre estes, portanto, o do político Paulo César Hartung Gomes, ex-governador do Espírito Santo.

Hartung é um dos mais influentes políticos capixabas. Marcou militância na União Nacional dos Estudantes (UNE) e teve ligações com o PCB. Ou seja, com pegadas para entendimentos com Lula.

O ex-governador iniciou a carreira nas urnas nas eleições de 1983. Desde então, assumiu cadeiras de deputado estadual e federal, senador, prefeito de Vitória e governador do ES (três mandatos). Passou pelo PSDB, PMDB e MDB. Está sem partido desde 2018, quando encerrou a gestão à frente da administração estadual e decidiu não disputar um quarto mandato de governador.

Vale quer evitar novo caso Roger Agnelli

Entre 2001 e 2011, a Vale (privatizada em 1997) foi presidida por Roger Agnelli. No período, uma holding do bloco de acionistas da mineradora, a Valepar, era liderada pelo Banco Bradesco. Este fez Roger, que foi do seu bureau executivo, diretor-presidente da ex-estatal. Ele adotou punho de ferro na crise financeira global da subprime. A quebradeira surgiu nos Estados Unidos, no setor imobiliário. Foi tão avassaladora ao ponto de quebrar o principal banco de negócios do país, o Lehman Brothers.

Roger foi pressionado por Lula a partir de 2008 (no seu 2º mandato) até 2011. Ou seja, invadiu , no Governo Dilma Rousseff (PT) para impor agendas partidárias na gestão companhia.

O objetivo maior de Lula era impedir o presidente da empresa seguisse com austeridade adotada para atravessar a turbulência mundial. Mas Roger não cedeu e pegou pesado: segurou investimentos e demitiu cerca de 2 mil empregados. Lula queria (conseguiu) que a empresa entrasse mais expansiva na siderurgia, além de estancar as demissões em massa.

O Governo usava o BNDES Participações (BNDESPar), do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) como canal de pressão contra Roger. Representando a União, a BNDESPar detinha ação golden share (especial). O Planalto engrossava sua influência com a presença dos principais fundos de pensão de estatais no capital da mineradora. A golden share possibilita ao Governo alguns poderes de veto. Entre estes, por exemplo, impedir mudança da sede, separação de ativos (minas e ferrovias), denominação social.

Lula, então, mesmo fora do Planalto (mas fazendo Dilma marionete de suas ideias) ficou quase três anos brigando pela saída de Roger. Este, porém, resistiu até onde pode. E teve, todavia, tempo para consolidar várias frentes internacionais nos negócios da companhia. E ser reconhecido.

Mundo reconheceu competência da vítima do PT

Os petistas venceram. Em 2011, Roger foi posto para fora da Vale. Em 2012, entretanto, veio a resposta moral contra o PT: “Harvard Business Review e o Insead (Insead Business School – Master & Executive Programmes), em ranking global, colocaram o executivo como o 4º CEO de melhor desempenho. Mas, não parou nessa referência. Além disso e para piorar a azia entre integrantes do “núcleo central” do PT, na cozinha do Planalto, Roger foi o único do Brasil naquele seleto selecionado.

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O ex-presidente da Vale, juntamente com toda família (esposa e dois filhos) e mais familiares, morreu em acidente com jato fretado, em 2016. Em São Paulo.

No ano seguinte, a mineradora adotou Acordo de Acionistas.

Passados 12 anos da queda de Roger e meia década da cassação do mandato de Dilma (agosto de 2016), Lula retorna, ignorando compromissos de campanha, em 2022: voltar sem revanchismo. Todavia, já recapitulou algumas ações contra contrariedades vividas no período 2003-2016. Desta vez, porém, com menos de 60 dias do 3º mandato, inaugurou a luz amarela contra a autonomia do Banco Central do Brasil (BCB). O BC conquistou no Governo Bolsonaro.

A briga de Lula contra uma instituição de Estado, portanto, deve ter adicionado mais tempero da Vale. Paulo Hartung tem muitas simpatias dentro do PT. A Vale tem ações negociadas nas Bolsas de Valores. Aposta, então, suas fichas nesse cacife do capixaba e seguir com sua gestão corporativa. O principal propósito, então, é evitar receios dos investidores em seus papéis.

A AGO da Vale está marcada para 28 de abril. A companhia elege integrantes do Conselho de Administração a cada dois anos.

*Título original do post: Vale cria escudo político contra Lula: Paulo Hartung

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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