Sem provas, depoimento de Moro se iguala à montanha que pariu o rato

Presidente quer demitir diretor da Polícia Federal e Moro ameaça pedir demissão. Foto - Alan Santos - Presidência da República

Bolsonaro e Moro, fim da aliança, foto - Alan Santos - Presidência da República

Do ponto de vista político, o depoimento de Sérgio Moro foi um desgaste acentuado para Bolsonaro, reforçando aquilo que o ex-ministro da Justiça denunciou na saída. Mas é só. Do ponto de vista jurídico, criminal, que poderia agravar a situação do presidente, levá-lo a um processo, foi muito fraco.

Parafraseando o próprio ex-ministro, que recorreu à expressão latina (do pensador Horácio) quando teve conversas vazadas pelo site The Intercept Brasil. “A montanha pariu um rato”, que é usada para situações polêmicas, mas que não correspondem e viram decepção. Assim, foi também seu depoimento.

Moro não apresentou nenhuma prova daquilo que já falou além de mensagens do presidente insistindo em interferir politicamente na Polícia Federal. No comando e rumos da PF, especialmente a do Rio de Janeiro.

Acusação só serve a julgamento político

O mundo político e jurídico tem essa mesma percepção, mas isso não basta. Faltam as provas que um julgamento, jurídico e criminal, exige. Para um julgamento político, do tipo impeachment, o prato está cheio. Mas Bolsonaro está se articulando com os deputados do Centrão, bloco parlamentar que apoia o presidente de plantão em troca de benesses.

Quando perguntado sobre provas que incriminariam o presidente, Moro saiu dizendo que cabe às autoridades competentes investigar. Quando indagado sobre as razões do presidente para querer interferir na PF, o ex-ministro disse que a pergunta teria que ser feita ao presidente. Bolsonaro teria insistido, segundo ele, várias vezes. Para fazer isso, trocou o diretor-geral da PF e atropelou o ministro que acabou saindo.

Que Bolsonaro tinha e tem fixação pelos rumos das investigações da Polícia Federal no Rio de Janeiro, onde seus filhos aparecem como alvo de inquéritos, ninguém mais tem dúvida. Mas faltou a Moro apresentar a prova, a bala de prata que pudesse enquadrar o presidente.

Bala de prata ainda não veio

O governo Bolsonaro e seus seguidores devem estar comemorando a divulgação do depoimento do ex-ministro, que, até agora, pareceu mais um traque do que uma bomba. Mas a política é dinâmica e o processo continua. A gente sabe como começam essas coisas, mas não como terminam. Agora, três ministros (militares) e delegados da PF serão ouvidos. E Bolsonaro vai continuar falando e desafiando. Dizem que o peixe morre pela boca.

Há quem veja no depoimento de Moro uma estratégia calculada para não se autoincriminar. Ou seja, se apresentasse provas, ele próprio poderia ser acusado de omissão, pelo fato de ter convivido e se silenciado diante de malfeitos quando era ministro.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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