O que está por trás da boa vontade do governador Zema para com Bolsonaro

  • por | publicado: 20/04/2020 - 05:00 | atualizado: 22/04/2020 - 13:42
Presidente Bolsonaro discurso para manifestantes em Brasília que faziam a defesa da ditadura e da volta do AI-5. Foto-Twitter Jair Bolsonaro

Presidente Bolsonaro discurso para manifestantes em Brasília que faziam a defesa da ditadura e da volta do AI-5. Foto-Twitter Jair Bolsonaro

O que pretende o governador Romeu Zema (Novo) ao se recusar a participar de qualquer iniciativa de seus colegas governadores que faça alguma crítica ao presidente Jair Bolsonaro?

Ontem, o mineiro não quis assinar a “Carta Aberta à Sociedade Brasileira em Defesa da Democracia”, chancelada por 20 governadores de outros estados, que faz a defesa dos presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, David Alcolumbre – que não têm sido poupados por Bolsonaro, especialmente o primeiro. Mas, por outro lado, convida a todos a se unirem para que o país possa superar a crise provocada pelo coronavírus.

Sim, o documento de ontem tem reparos ao comportamento do presidente Bolsonaro, que na semana passada comprou mais uma briga com o presidente da Câmara, e que vem estimulando, dia sim e no outro também, a quebra do isolamento social. Ele sonha com a volta de todos os trabalhadores a um mundo normal que o tal do coronavírus, como demonstrado mundo afora, parece não concordar.

Mas os governadores também acenam com o cachimbo da paz. “Consideramos fundamental superar nossas eventuais diferenças através do esforço do diálogo democrático e desprovido de vaidades”, diz um trecho da carta.

Ainda assim, o mineiro Zema preferiu não se juntar aos 20 colegas, como havia feito em carta elaborada em 25 de março, em que os governadores pediam ajuda do governo federal para vencer o coronavírus (este documento só não foi assinado pelo governador de Minas e pelo de Rondônia, Coronel Marcos Rocha).

Créditos do nióbio

Logo depois de ter se recusado a assinar a carta de março, Romeu Zema conseguiu uma reunião com o presidente Jair Bolsonaro e com o ministro da Economia, Paulo Guedes, onde foi passar o pires, uma vez que a situação financeira do Estado é calamitosa. Não se tem notícia de que tenha saído do encontro com alguma benesse.

Mas a cautela de Zema em relação ao presidente tem pelo menos uma explicação bem objetiva. O governo de Minas deseja que um banco público (Caixa Econômica Federal ou Banco do Brasil) banque a operação de antecipação de créditos do nióbio, que foi aprovada em dezembro pela Assembleia Legislativa, mas que o governo não conseguiu concretizar.

Bancos privados não têm demonstrado interesse no negócio, uma vez que o nióbio, em tempos de pandemia, não parece estar na lista de prioridades do mercado mundo afora. Se um banco público pudesse ser generoso e assumir o que hoje parece ser um abacaxi (e essa, em última instância, é uma decisão política), Minas Gerais pode conseguir um respiro, vale dizer, um alívio temporário nas suas combalidas finanças.

A rigor, o governador de Minas não é obrigado a se aliar a nenhuma iniciativa de seus colegas governadores, mesmo que elas demonstrem um interesse genuíno em defender os brasileiros. Mas é obrigação de qualquer governante não perder de vista o recado que os 20 governadores deixaram no final do documento que Zema não quis assinar:

“A saúde e a vida do povo brasileiro devem estar muito acima de interesses políticos, em especial nesse momento de crise.”

Ah, a equipe econômica não quer ouvir falar de nióbio! O que não significa que não possa mudar de ideia, se o presidente assim determinar.

Relacionadas

As duas crises que afetam o Brasil: coronavírus e presidente Jair Bolsonaro

Pandemia e eleição levam 6 prefeitos mineiros à renúncia

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

All Comments