ANS põe Amil na UTI; uma Itapemirim dos planos de saúde

  • por | publicado: 06/04/2022 - 16:49 | atualizado: 20/04/2022 - 08:35

A Amil Saúde foi impedida pela ANS de consolidar transferência de 347 mil planos para controlada. O grupo Amil também terá de suspender qualquer negociação de venda da APS, que receberia os planos - Foto da sede do Grupo Amil, no Rio - Crédito: BarraShopping/Divulgação

Líder em atendimento à saúde, Amil Saúde Ltda tem chances de repetir histórico da ascensão e queda (final do post)da Golden Cross. Amil cresceu feito foguete, na década passada. Mas, há dois anos, perdeu sustentação, diante da decisão do controlador United Health Group, dos Estados Unidos, de interromper em níveis necessários aportes de sustentação dos planos individuais e família que vendeu.

Nesta semana, porém, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) melou negociações de transferências e vendas de ativos no Grupo Amil. Os motivos são vários. A situação na empresa, portanto, aponta também para riscos de caminhos semelhantes aos que afundaram o Grupo Itapemirim: recuperação judicial, desde 2016, denúncias contra controlador, intervenção da Justiça etc. (relembre ocaso Aqui).

UHG está reticente em várias frentes. Por exemplo, não deseja aportar valor estimado em R$ 4,5 bilhões a R$ 5 bilhões para salvar o Grupo Amil. Preferiu, portanto, cindir ativos das carteiras dos planos de saúde. Primeiro, repassou 337 mil planos de saúde individuais e familiares da Amil à sua controlada APS Assistência Personalizada à Saúde Ltda. A controlada, portanto, da noite para o dia, passou de 11 mil para quase 350 mil planos.

ANS dormiu na sala de espera

Mas, a UHG foi além. Já definia em contrato a venda da APS para fora do grupo. A holding norte-americana, então, sinaliza com a possibilidade de decolar do Brasil.

A ANS levou, portanto, bola nas costas nessa engenharia da UHG. Interferiu tardiamente, na segunda (04/04). Em decisão cautelar da Diretoria Colegiada, mandou que Amil reincorpore os 337 mil contratos despachados. E mais: interrompa qualquer operação de venda APS. Mas, fato é que, o mar de lambanças faz maré alta. A ponta do iceberg de problemas está visível a longe: beneficiários reclamam a falta de atendimentos e, claro, pedem informações sobre o futuro.

ANS determinou que, em até 10 dias, as duas operadoras coligadas se manifestem. O agente definirá, então, que destino dará.

Agente regulador autorizou transferência…

Entretanto, o início da operação comandada UHG teve anuência da ANS. A transferência da carteira para APS foi autorizada no pela agência. E isso no apagar das luzes de 2021: em 22 de dezembro. Amil veiculou comunicado (“Comunicado Amil – informações sobre planos Amil”). No pacote foram afetados contratos em São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná.

UHG assumiu controle do Grupo Amil em 2012. Uma operação de R$ 6,498 bilhões. Via UnitedHealth Group Incorporated (“UHG”), comprou de ações da J.P.L.S.P.E. Empreendimentos e Participações S.A. (“JPL”), controladora da Amil Participações S.A. (Amilpar). A aquisição de 85,5% do capital total e votante da JPL, representou, portanto, 59,8% da Amilpar. Na época, 05/10/2012, o valor de mercado da Amilpar comunicado à Bolsa de Valores foi de R$11,22 bilhões.

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… mas acusa Amil de omitir venda da APS

ANS assegura que, na época da autorização da transferência dos contratos, a Amil definiu como simples rearranjo societário entre operadoras de mesmo grupo econômico. Entretanto, que ao receber, em março, documentação que faltava, apareceu a venda das quotas da APS. Ou seja, desaparece o relacionamento em grupo. E, portanto, a operação dava fim “à garantia oferecida pela Amil em favor da APS”, destacou nota da ANS

APS vinha sendo esvaziada

O balaio de gatos armado pela UHG é bem maior. A APS começou a desidratar sua estrutura em de 1º de fevereiro. Também com autorização da ANS, transferiu os planos coletivos nas modalidades Empresarial, PME e Adesão para a Sobam Centro Médico Hospitalar Ltda, de Jundiaí (SP).

Detalhe: a UHG Brasil teve CNPJ “baixado” em 31 de janeiro último. Motivo: “incorporação”.

ANS vê incapacidade financeira no consórcio que negocia

Ao vetar a operação da Amil, a ANS apontou falta de “equilíbrio” econômico-financeiro no pool de “investidores” (Seferin & Coelho, Fiord Capital e Henning von Koss) que figuram em contrato de compra da APS. Portanto, representaria risco para quem contratou serviços de saúde direto com Amil.

ANS alega que Amil não informou sobre venda da APS. Além disso, que candidatos não teriam caixa para manter equilíbrio econômico-financeiro dos planos que assumiriam – Crédito: ANPC/Divulgação

Com base em dados próprios e coletados em sites de reclamações dos consumidores, a ANS apresentou um ranking, não oficial, para melhores planos de saúde de 2022. A Amil aparece em terceiro, atrás da Unimed e Bradesco Saúde.

Os pretensos investidores, entretanto, contestaram. Ao O Globo, disseram que a APS é um bom negócio. E que atrairiam até R$ 2,3 bilhões para a continuidade da APS, além da capacidade de geração de R$ 3 bilhões anuais.

O consórcio é liderado pelo executivo Henning Heinz Martin von Koss. Este, figura em 61 CNPJs (4 de matrizes e 57 filiais), muitos com “baixas” junto à Receita federal.

Mesmo grupo comprou hospital; mas prefeitura não entrega

Ocorre que o mesmo pool está às voltas em processo de compra do Hospital Arcanjo São Miguel, em Gramado (RS), sob intervenção da Prefeitura. Em agosto de 2021, a Fiord Capital, como fundo, e, Seferin & Coelho e Herning von Koss, sócios, assinaram contrato de R$ 40 milhões. Destes, R$ 10 milhões para ressarcir custeio e manutenção da administração municipal.

Todavia, diante dos imbróglios de março com os tais investidores, a Prefeitura de Gramado prorrogou a intervenção até maio. O município alega que não recebeu dos compradores um “plano operacional”. Mas é certo o fim do atendimento filantrópico – despesas anuais de R$ 6 milhões.

Henning von Koss, entretanto, se apresenta como executivo acima das desconfianças. “(…) “mais de 25 anos de experiência profissional, adquirida em empresas nacionais e multinacionais dos segmentos Industriais (Pneus, Químico), Frigoríficos, Farmacêutico, Serviços Médicos / Hospitalares” (sic – currículo na internet – 25/02/2022). E que demonstrou “competência na direção, reorganização e reestruturação de empresas, tendo operado negócios de mais de US$ 1 bilhão”.

Rede D’Or foi esnobada pela Amil

O impasse sobre a mesa da ANS aponta enorme risco de bolha no sistema da saúde. Então, a saída visível se daria em duas etapas: intervenção direta no Grupo Amil e fatiamento, sem aventuras, dos ativos.

O maior comprador no mercado, a Rede D’Or, foi esnobada pela Amil, em uma oferta anterior. No momento, sua holding, a Rede D’Or São Luiz S.A., administra a compra da SulAmérica. Este negócio (patrimônio de R$ 8,135 bilhões) deve ser fechado até o próximo dia 30.

Amil remete à bolha Golden Cross

Fundada em 1971, no Rio de Janeiro, a Golden Cross atingiu a liderança no mercado brasileiro em 1997 – 2,5 milhões de clientes. Mas, os problemas surgiram com enxurradas de expansões, aquisições, compras diversificações em novos produtos. Isso, afetou o caixa, Em 2013, portanto, começou a encolher. Primeiro, transferiu parte da carteira para Unimed-Rio. A empresa, porém, anunciou, em agosto, metas de retomada de parte do mercado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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