Cemitério de colégios centenários

  • por | publicado: 19/12/2023 - 11:45

Colégio Imaculada foi desapropriado, em junho, pela Prefeitura por R$ 48 milhões. Na foto, detalhe da portaria do edifício principal, de três pavimentos, no Centro de Belo Horizonte - Crédito: Nairo Alméri/ALÉM DO FATO

O sucesso do leilão (sem lance) do complexo do antigo Instituto Izabela Hendrix, semana passada, arrematado por uma holding de colégios da Igreja Católica, não exauriu o histórico financeiro negativo na pauta do ensino Médio privado na Capital. Permanece, portanto, sobre Belo Horizonte a nuvem do cemitério de colégios centenários.

O Instituto Izabela, da Igreja Metodista, encerrou o ensino Médio ao término do ano letivo de 2020. Dois anos depois, sepultou nível Superior. Foram 118 anos.

Três quarteirões abaixo, na mesma Rua da Bahia, a Igreja Católica fechou as portas do Colégio Imaculada Conceição no final de 2021. Apagado, portanto, um ciclo de 106 anos.

Crise engoliu colégios religiosos tradicionais

O Izabela acumulava balanços com crise de resultados por duas décadas. Ao final, então, acabou tragado no bojo do pedido de recuperação judicial do Grupo de Educação Metodista, mantenedor de escolas da Igreja Metodista. (relembre abaixo)

O Imaculada também navegava com dificuldades financeiras (…o período bastante difícil e sem precedentes de nossa história mundial, …). A situação se agravou na pandemia do novo coronavírus (COVID-19). A Província do Brasil-Caribe da Congregação das Filhas de Jesus, mantenedora, não escondeu a situação no comunicado do ponto final, em agosto de 2021.

O tsunami silencioso na contabilidade das escolas católicas subiu o bairro da Serra. Em 06 de setembro de 2022, Instituto Sagrado Coração de Maria negociou o portfólio discente do Colégio Sagrado Coração de Maria (CSCM). Do outro lado do balcão, com dinheiro, o Grupo SEB – Sistema Educacional Brasileiro, de Ribeirão Preto (SP).

Mas, as tratativas foram apresentadas como simples transferência da “gestão”. O CSCM saiu das salas do Ensino Infantil ao Médio em janeiro deste ano. Findava a temporada de 95 anos no rol de escolas tradicionais da capital mineira.

Bilionário do ensino levou o CSCM e cortou bolsas

O CSCM era, até então, parte da multinacional Rede Sagrado. Operava como um dos braços de negócios controlados pelo Instituto da Congregação das Religiosas do Sacré-Coeur de Marie.

A congregação surgiu em Béziers, no Sul da França, em 1849. Chegou ao Brasil em 1911. Tem sua marca nos mercados do ensino em Minas Gerais, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Brasília. As instalações iniciais do CSCM, em Belo Horizonte, datam de 1930 e estão distribuídas por 9 mil m2 de área construída.

A Igreja quis, todavia, formatar a negociação como “decisão estratégica de reestruturação”. E bateu um carimbo de “parceria estratégica”. No popular, entretanto, saiu da praça o CSCM e entrou o conglomerado paulista. O comprador surgiu no mercado em 1963. Suas escolas aplicam intensivamente metodologias focadas em plataformas digitais.

Reprodução de imagem do Sagrado Coração de Maria, no bairro da Serra, em Belo Horizonte – Crédito: Redes Sociais da RCSMB

No universo do ensino, portanto, a operação entre as instituições foi tratada como venda, de fato, da carteira do business.

O braço de investimentos do Grupo SEB é o Instituto SEB. Aparece como controlador dessa holding é o bilionário Chaim Zaher. Ele é nascido no Líbano, mas naturalizado brasileiro.

Na fase de negociação, o CSCM tinha, do ensino infantil até o nível Médio, cerca de 800 alunos matriculados. Em outubro, durante protestos de pais de alunos, contra a interrupção das bolsas, a Escola SEB Sagrado (novo nome) estava 25% a menos, ou seja, 600.

Leilão diferente para o Izabela: sem lace

Como previu ALÉM DO FATO (Igreja Católica pode levar Izabela; R$ 80 milhões – 14/12), não houve lance na praça do enorme complexo de um quarteirão, em bairro da Zona Sul da capital mineira. Prevaleceu, portanto, a condição de stalking horse, ou seja, detentor da primeira proposta firme, da holding católica Sociedade Mineira de Cultura. 

Prefeitura desapropriou o Imaculada para desenvolver um Centro de Ensino Integral – Foto: Nairo Alméri/ALÉM DO FATO

Desapropriação do Imaculada para um ‘Cieps’ da Prefeitura

A Prefeitura da cidade anunciou, em junho, a desapropriação do conjunto dos imóveis e benfeitorias do Imaculada (praticamente um quarteirão). No local, instalará o primeiro “Centro de Educação Integral – CEI”. Cópia do que foram os Cieps, no Rio de Janeiro, construídos no primeiro governo de Leonel Brizola.

Reprodução do Decreto publicado no DOM, de desapropriação dos imóveis do Imaculada pela Prefeitura

Essa desapropriação, entretanto, pode ter sido bom negócio para a Igreja. Pois, veio em momento de enorme oferta de grandes imóveis comerciais fechados na cidade, embolsará R$ 48 milhões. Ou seja, mais de 50% daquilo que desembolsará com o arremate do Izabela.

O município prevê a inauguração do CEI em 2024.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments