Trombada na “caixa-preta” expõe ainda mais o BNDES

  • por | publicado: 24/01/2020 - 14:22 | atualizado: 31/01/2020 - 15:18

Auditoria do escritório Cleary Gottlieb, de Nova York, para levantar "caixa-preta" nos contratos do BNDES gera polêmicas em duas frentes: valor do contrato e acusações entre o presidente e o antecessor - Foto: Divulgação/Cleary Gottlieb

A auditoria contratada à Cleary Gottlieb Steen & Hamilton LLP, de Nova York (EUA) para abrir a “caixa-preta” no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) sinaliza outra provável “caixa-preta”. Ao longo da semana, o jornal paulista “Estadão” deixou claro que o contrato trouxe mais problemas. Mas, a cortina se abriu no outro lado Atlântico, no Fórum Econômico Mundial, em Davos (Suíça), encerrado nesta sexta (24/01).

Os novos elementos extrapolam os protestos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), em janeiro. A Ordem foi se posicionou contrária à colocação de uma advocacia multinacional nas entranhas do banco. E superam, ainda, a gritaria geral em cima do valor inicial: US$ 14 milhões.

Agora, o abre-alas do imbróglio é o contrato aditivo de 25%, mais US$ 3,5 milhões, assinado em outubro. Esse ato ocorreu a dois meses do término do contrato. Assim, a conta pró-Cleary disparou para US$ 17,5 milhões.

Chumbo trocado: Montezano x Rabello

Diante dos protestos, o presidente do BNDES, Gustavo Montezano, lá da Suíça, disse que, ao assumir, em julho, 90% da auditoria estavam concluídos. Mesmo assim, o banco firmou o aditivo. Justificativa: necessidade de concluir investigação em contratos do Grupo J&F, pertencente aos irmãos e empresários Wesley e Joesley Batista. Porém, observa o jornal paulista, a auditoria não teria encontrado “indícios de corrupção”, ao menos, em oito contratos do J&F.

Montezano acusa o antecessor, Paulo Rabello de Castro, pelo valor elevado pago à Cleary. Rabello de Castro, de sua parte, se diz indignado. Afirma que Montezano assinou um contrato com valor “quatro a cinco vezes maior” ao aprovado por sua gestão. Os dois, portanto, justificam outra investigação.

Há, todavia, que se considerar um componente político dourando o aditivo. Joesley, é bom lembrar, gravou conversa com o então presidente Michel Temer. Foi quando ambos, supostamente, discutiam pagamentos ilícitos a políticos ligados ao Governo. Isso dentro do Palácio Jaburu (residência oficial),em março de 2017.

MP do TCU dá prazo para BNDES

É esperado, então, que na próxima semana, Montezano e Rabello de Castro falem mais. Principalmente com a entrada, hoje (24/01), do Ministério Publico do Tribunal de Contas da União (TCU) nessa trapalhada. BNDES tem 20 dias para se explicar.

Na “pasta voadora” do BNDES, Huck e Dória

Os empresários Luciano Huck (apresentador na TV Globo) e João Dória Júnior (governador de São Paulo – PSDB) foram beneficiados em linha de crédito para compra de jatinhos que também seriam auditadas pela Cleary Gottlieb – Fotos: Reprodução/Redes Sociais.

Entre os contratos alvos da auditoria da Cleary estrariam também financiamentos a empresários e/ou empresas nas compras de jatos executivos da Embraer. Alguns técnicos do BNDES chamavam a linha de “pasta voadora”. Um paralelo com a “pasta cor-de-rosa” encontrada por interventores do Banco Central em cofre do extinto Banco Econômico. Ela continha anotações das doações do banco nas eleições de 1990. Entre tantos políticos favorecidos, o então senador José Serra (PSDB-SP).

O financiamento dos jatinhos no BNDES era via linha de crédito do Programa de Sustentação do Investimento (PSI). Criado em 2009, no Governo Lula, o PSI, naquelas operações, cobrava juros abaixo da Selic – de 2,5% ao ano a 8,7% ao ano. Por isso, de cara, foi chamado de “bolsa-empresário”. A operação pode até ter parecido um deboche, diante da falta de dinheiro barato para o país solucionar atendimento básico à população. Mas, não foi ilegal.

Na tal “pasta-voadora”, figuram alguns empresários opositores ao Governo Bolsonaro. Entre estes, o apresentador Luciano Huck, do programa “Caldeirão do Huck”, da TV Globo. Outra personalidade pública, o empresário de comunicação e governador de São Paulo, João Dória Júnior (PSDB). Huck e Dória foram à Davos. Outro, também muito popular, nessa galeria é o Grupo JBS/J&F, dos irmãos e empresários Wesley e Joesley.

A frota de jatinhos financiada pelo BNDES, a juros módicos, em tempos de inflação alta, superaria 130 unidades.

Caso Econômico e Febraban

O Econômico foi liquidado. Os políticos, entretanto, seguiram adiante. Serra, por exemplo, foi ministro (Planejamento e Saúde), prefeito de São Paulo e governador, disputou a Presidência da República, em 2010, e ministro novamente (Relações Exteriores).

A intervenção no Econômico foi em agosto de 1995. Quatro meses depois, ocorreu o vazamento das doações. A revelação foi atribuída às diferenças entre grupos políticos rivais liderados por Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA) e caciques do PSDB paulista, incluindo Fernando Henrique e Serra.

O Econômico, do ex-ministro Ângelo Calmos de Sá, da Bahia, teria bancado US$ 2,5 milhões para 25 políticos. A Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), na contabilidade do setor, apadrinhando outros 24.

Na época, a Justiça Eleitoral proibia doações em dinheiro. Portanto, os repasses foram caracterizados como ilícitos, “caixa 2”.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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