Ataques de Zema à Cemig só atendem manutenção do Indi

Romeu Zema acusa Cemig de não atender à indústria. Faz isso após ter assinado contrato com empresa que, desde 2018, executa projetos, como a UFV Janaúba (foto), com prioridade da estatal no atendimento às empresas. - Foto: Cemig GD/Divulgação

Nos ataques, ontem (5), à Cia. Energética de Minas Gerais (Cemig), de que não estaria abastecendo a indústria, o governador Romeu Zema pode ter falado verdades. Porém, simultaneamente, encobriu propósitos políticos (privatizar a toque de caixa) e protegeu a intromissão direta do Indi em área em que a estatal tem expertise internacional: prospecção de mercado, operação de sistemas, consultoria de engenharia e implantação de soluções no setor elétrico.

Em fevereiro, a Cemig Geração Distribuída (Cemig GD) inaugurou sua primeira usina de minigeração fotovoltaica (UFV), para 5 megawatts (MW), em Janaúba, no Vale do São Francisco. Investiu no projeto R$ 18,5 milhões. A usina abastece prioritariamente consumidores de baixa tensão no segmento do comércio, do Mercado Central, e indústrias de pequeno porte vinculadas à sindicatos associados à Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg). Ou seja, não parece haver descaso com as empresas, contrariando parte do discurso crítico de Romeu Zema, em Santa Rita do Sapucaí, o Vale da Eletrônica. O governador falou para uma plateia de empresários.

“Penso que hoje indústrias gastam R$ 1 milhão por mês, pagando óleo diesel em geradores, quando poderiam comprar energia elétrica por um quarto desse valor da Cemig, que não atende à indústria”, disse o governador, conforme reportagem do Estado de Minas. Será que alguém aplaudiu esse trecho?

Antes dos ataques, deveria consultar

Na última quinzena do Governo Pimentel, o então presidente do Grupo Cemig, Bernardo Salomão de Alvarenga, assinou com o presidente da Fiemg, Flávio Roscoe, termo de cooperação para reduzir custos da energia despachada à indústria, valendo-se das expansão da geração distribuída. O propósito fixou expansão das UFVs como opção. “Até 2020, serão 30 usinas (da Cemig)”, assegurou o executivo da estatal. Acrescentou que falava de número de “planejamento inicial” e que a tendência era a de construir bem mais. O dirigente estimou que redução de custo, para indústria na geração distribuída comparada à eletricidade das hidrelétricas (UHEs) chega a 15%.

Pareciam afinados os discursos do executivo da Cemig, uma estatal de capital misto (tem ações do capital social listadas nas Bolsas B3, Nyse e Madri), e do dirigente da indústria. A Cemig GD construiria, nos dois anos seguintes, UFVs com prioridade de abastecimento das pequenas indústrias e comércios. Essas UFVs poderiam gerar até 150 MW. O presidente da Fiemg estimou um potencial bem acima, para 1 gigawatss (GW). Mas que os empresários teriam que “esperar as usinas serem construídas”.

Súmula omite o principal: valor

A UFV Janaúba foi construída pelo Grupo Mori Energia Solar. Coincidência, pode ser, a autarquia Instituto de Desenvolvimento Integrado de Minas Gerais (Indi) acaba de assinar protocolo de intenções , 09/2019, com a empresa Mori Energia Holding S.A. “Viabilizar a implantação e operação de 110 usinas de minigeração de energia elétrica distribuída, de 1MW cada, de fonte fotovoltaica, em município da região norte de Minas Gerais, destinadas à produção de energia elétrica” (sic). Conforme a súmula, foram envolvidos na assinatura do protocolo, dia 30, o Governo de Minas, Secretarias de Estado da Fazenda e a de Desenvolvimento Econômico.

A “Agencia Minas” (do Governo de MG), porém, foi mais ampla no fato. Deu a entender que o governador Romeu Zema, juntamente com o diretor de Suprimentos da Mori, Bruno Ken Taniwaki Shiraga, assinou, na verdade, um “protocolo” conclusivo, o que não evidencia a súmula do “protocolo de intenções 09/2019”. Na notícia, a afirmação: “(…) para implantação de usinas fotovoltaicas no estado. Ao todo, serão investidos R$ 523 milhões na instalação de 32 usinas em 17 municípios do Norte de Minas”. “Fico satisfeito em nos consolidarmos (Governo de Minas e Mori) cada vez mais como o primeiro lugar na geração de energia fotovoltaica aqui no Brasil. Tenho certeza que essa grande quantidade adicional de energia gerada a médio e longo prazo vai tornar o preço competitivo e nós vamos ter condições de atrair muitas indústrias aqui para o estado”, manifestou o governador.

Duplicidade de funções no Secretariado

Assinaram o “protocolo” os secretários de Estado de Fazenda, Gustavo Barbosa, e de Governo, Bilac Pinto, o diretor-presidente da Agência de Promoção de Investimento e Comércio Exterior de Minas Gerais (Indi – deve ser nome fantasia), Thiago Toscano, “além de diretores e representantes da Cemig e Indi”. Ou seja, a máquina do Estado trata de energia na Cemig (sua vocação internacional, desde a criação, em 1952) e dentro do Indi (no passado, autarquia controlada da Cemig e do BDMG). O Indi atuava, literalmente, na atração de empreendimentos, com um corpo técnico instruindo como enquadrar projetos linhas de financiamentos. Mas cabe perguntar: quantos Indis estão espalhados pelo Secretariado do Governo? Quantas Fapemigs (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais)? Quantos BDMGs? Quantas Codemigs (Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais)? Quantas Cemigs? Quantas FJPs (Fundação João Pinheiro)? Etc.

Há, inegavelmente, uma embolada federal. Romeu Zema parece alheio às diretorias executivas que ele colocou nas cúpulas das estatais. Fala freneticamente em privatizar a Cemig. Enquanto, no curso natural de empresa de mercado, a estatal amenta participação de transmissão. Ou seja, melhora seu perfil. O governador rema contra sua gestão, pois, não separa coisas. Usa, por exemplo, para Cemig mesma linha do discurso choroso (e acomodado) pelos tais R$ 135 bilhões da Lei Kandir, promessa deixada por Papai Noel no sapatinho do chefe do Palácio da Liberdade.

A máquina da administração direta (do Executivo) toca paradas que são da natureza das estatais. Não apenas no caso da Cemig. Com um pente-fino, Romeu Zema descobrirá que está tocando (gastando dinheiro a mais) um governo dentro do próprio governo. Há duplicidade de funções em várias áreas. Conclusão: vai longe a espinha dorsal o discurso de campanha: enxugar a máquina do Estado (a administração direta).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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