Em conversa gravada pela PF, doleiro diz que pagava propina a procurador da Lava Jato

Em mensagem interceptada pela Polícia Federal, doleiro fala de pagamento de propino a procurador Januário Paludo, da Lava Jato. Foto - Procuradoria da República do Paraná/Divulgação

Em mensagem interceptada pela Polícia Federal, doleiro fala de pagamento de propina a procurador Januário Paludo, da Lava Jato. Foto - Procuradoria da República do Paraná/Divulgação

Mais um revés para a força-tarefa da Lava Jato de Curitiba, criada para combater a corrupção no país. Segundo matéria publicada pelo portal UOL, Dario Messer, “o doleiro dos doleiros”, em conversa com sua namorada Myra Athayde, interceptada pela Polícia Federal, afirma que pagou propinas mensais para o procurador Januário Paludo.

Paludo é um dos procuradores mais antigos da Lava Jato. Integra a força-tarefa desde sua criação, em 2014. É tido como uma referência dentro da operação e uma espécie de conselheiro do coordenador da Lava Jato, Deltan Dallagnol.

A reportagem informa que os diálogos de Messer sobre a propina a Paludo ocorreram em agosto de 2018 e foram obtidos pela Polícia Federal do Rio de Janeiro durante as investigações que basearam a operação Patrón, última fase da Lava Jato no Estado.

Nas conversas obtidas pela PF, o doleiro fala para a namorada sobre o andamento dos processos que responde. Ele diz que uma das testemunhas de acusação contra ele teria uma reunião com Januário Paludo.

50 mil dólares por mês

Em seguida, a namorada afirma: “Sendo que esse Paludo é destinatário de pelo menos parte da propina paga pelos meninos todo mês“. Os meninos seriam dois funcionários do doleiro. Em depoimento que prestaram à PFL do Rio, eles teriam confessado que pagavam mensalmente 50 mil dólares (mais de 200 mil reais) a um advogado, para que ele cuidasse da proteção do doleiro na Polícia Federal e no Ministério Público.

Procurada pelo UOL, a Lava Jato do Rio informou que já enviou o relatório sobre a denúncia para a Procuradoria-Geral da República, a quem caberá definir que providências serão tomadas. Já a força-tarefa de Curitiba, também procurada pela reportagem, afirmou que Januário Paludo preferiu não se manifestar.

Mais um revés

Embora se trate de uma denúncia, que precisa ser apurada, o simples fato de um procurador-chave da força tarefa de Curitiba ter seu nome vinculado a recebimento de propina representa um forte abalo no trabalho feito pelos procuradores do Paraná.

O prestígio da operação, até então quase que unanimidade no país, começou a ficar comprometido no início de junho, quando o site The Intercept Brasil passou a publicar uma série de reportagens, que foi batizada de “Vaza Jato”.

Nas matérias, foram expostos diálogos, reproduzidos de mensagens no aplicativo Telegram, entre integrantes da força-tarefa e também com o então juiz da 13º Vara Federal de Curitiba, Sérgio Moro, o responsável por julgar os processos da operação.

Nas mensagens, Moro, hoje ministro da Justiça, aparece orientando o Ministério Público sobre como conduzir as investigações, repassa informações privilegiadas aos procuradores e até sugere mudança na ordem das operações da Polícia Federal, agindo como se fosse, de fato, o chefe da lava jato.

Já o coordenador da força-tarefa, Deltan Dallagnol, foi flagrado querendo montar uma empresa de palestras para faturar com o prestígio da lava jato, confessou ter dúvidas sobre as provas contra o ex-presidente Lula, articulou para que fosse apresentado pedido de impeachment do ministro Gilmar Mendes, do Supremo, buscou informações, sem que tivesse autoridade para tal, do ministro Dias Toffoli, hoje presidente do STF.

Decisão de Moro anulada

Novo baque para a República de Curitiba veio em agosto. A Segunda Turma do STF decidiu, por 3 voto a 1, suspender a condenação do ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobras, Aldemir Bendini. Pela primeira vez, o STF anulou uma decisão do ex-juiz Sérgio Moro.

No final de setembro, o STF firmou maioria e passou a prevalecer a tese de que o réu tem o direito de apresentar suas alegações finais após o delator e não ao mesmo tempo, como vinha ocorrendo até então. Na prática, significa que alguns processos, inclusive o do ex-presidente Lula sobre o sítio de Atibaia, poderão retroceder alguns passos (embora o TRF 4, nesse caso, não tenha aceitado os argumentos da defesa de Lula, ainda cabe recursos a outras instâncias do Judiciário).

Mais recentemente, no dia 7 de outubro, o STF decidiu, por 6 votos a 5, que réus condenados só poderão ser presos após o trânsito em julgado, ou seja, depois de esgotados todos os recursos a quem têm direito (embora a decisão não impeça a justiça de decretar a prisão de réus até mesmo após a condenação em primeira instância, em casos previstos no Código de Processo Penal).

Por conta da decisão, o maior troféu da lava jato, o ex-presidente Lula, que ficou preso 580 dias na sede da PF de Curitiba, foi solto no dia seguinte. Como soltos foram também o ex-governador de Minas Eduardo Azeredo, o ex-ministro José Dirceu e outros.

Suspeição do ex-juiz

A derrota mais temida pela operação Lava Jato está ligada a um habeas corpus impetrado pelo defesa do ex-presidente Lula, que questiona a parcialidade do então juiz Sérgio Moro. O relator do caso é o ministro Gilmar Mendes, que chegou a anunciar que o assunto poderia ser resolvido ainda este ano – embora seja uma possibilidade remota.

Se Moro for considerado suspeito (e há boas chances de que seja), todos os processos que ele julgou na lava jato serão anulados e voltarão à estaca zero.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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