Eleição na Argentina enfraquece grupo de Bolsonaro na América do Sul

O argentino Alberto Fernández e o brasileiro Jair Bolsonaro, foto Reprodução

Na votação de 1º turno, consolidou-se, nesse domingo (27), a volta do peronismo na Argentina. Some-se a isso o que vem acontecendo em outros países da América Sul, tudo sinaliza mudanças de rota na região com a rejeição às propostas liberais.

Ainda no domingo, no vizinho Uruguai, Daniel Martínez ficou com 40,52 % dos votos. Ele enfrentará, no segundo turno, o candidato de direita, Luis Lacalle Pou, com 29,77%. Martínez é da coalizão de esquerda Frente Ampla. Seu grupo está há 15 anos no poder. Na Bolívia, Evo Morales caminha para o quarto mandato consecutivo. A derrota de Macri na Argentina foi também a primeira derrota da onda conservadora na América do Sul.

Aliado chileno vive forte crise

Além de perder o apoio da Argentina, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) viu seu principal aliado, Sebastian Piñera, ser reprovado em todo o Chile. A aprovação dele despencou para 14% em meio à uma onda de protestos no país. A pesquisa é do instituto Cadem publicada no domingo (27) pelo jornal chileno La Tercera. Em 18 de outubro, o instituto apontava 29% de aprovação. A rejeição, que era de 58%, subiu para 78%. É o pior resultado de um presidente chileno desde a redemocratização no país, em 1990.

O levantamento foi realizado de 23 a 24 de outubro, antes de manifestação histórica em Santiago, capital do Chile. Os atos reuniram 1,2 milhão de pessoas que reivindicavam reformas no modelo social e econômico do país. Os manifestantes também pediram a renúncia de Piñera e de seu ministro do Interior, Andrés Chadwick. Ambos decretaram o estado de emergência que entregou a segurança pública nas mãos de militares. A capital Santiago ficou uma semana sob toque de recolher.

Apoio só do Paraguai?

Além deles, Equador e Colômbia, igualmente, vivem distúrbios que deixam seus governos ameaçados. O argentino Macri e o chileno Piñera e outros são os principais aliados políticos e ideológicos de Jair Bolsonaro (PSL) no contexto sul-americano. Nesse xadrez, restará apenas o apoio do Paraguai. Não é à toa Bolsonaro voltou a falar em implodir o Mercosul, como ameaçava no início de seu governo.

Troca de farpas

Ele negou-se a cumprimentar o presidente eleito na Argentina e considerou uma afronta à democracia brasileira e ao sistema judiciário brasileiro o apoio que dele ao movimento Lula Livre. “Ele está afrontando o Brasil de graça”, afirmou Bolsonaro sobre o gesto de Alberto Fernández em apoio ao movimento Lula Livre. O gesto dele foi feito no dia da eleição, mesmo dia em que o ex-presidente Lula completou 74 anos.

Bolsonaro disse que irá aguardar os próximos passos do futuro governo argentino para, se necessário, “tomar alguma decisão em defesa do Brasil”. Alberto Fernández já chamou Bolsonaro, após as críticas, de racista, misógino e violento.

Importância dos dois países

A Argentina é um dos principais parceiros políticos e econômicos do Brasil. O país ocupa o 3º lugar no destino das exportações brasileiras, atrás da China e dos Estados Unidos. Juntos, Brasil e Argentina representam cerca de dois terços do território, da população e do PIB da América do Sul.

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O fato é que Bolsonaro arrumou mais um alvo para brigar e motivo para se indispor. No entanto, a sinalização é de enfraquecimento político do governo brasileiro na região, na América do Sul. Se não agir corretamente, há o risco de isolamento.

Risco argentino

A Argentina também tem seus problemas. Fernández terá o desafio de enfrentar a grande crise econômica do país. Tendo com vice a ex-presidente Cristina Kirchner, o novo governo assumirá em 10 de dezembro.

Crítico de Cristina Kirchner, Bolsonaro chegou a dizer que uma eventual vitória de Fernández colocaria a Argentina em risco de “virar Venezuela”.

“Povo gaúcho, se essa ‘esquerdalha’ voltar aqui na Argentina, nós poderemos ter, sim, no Rio Grande do Sul, um novo estado de Roraima. E não queremos isso: irmãos argentinos fugindo pra cá, tendo em vista o que de ruim parece que deve se concretizar por lá caso essas eleições realizadas ontem se confirmem agora no mês de outubro”, disse antes da votação.

Já o ministro da Economia, Paulo Guedes, chegou a dizer que o Brasil poderá deixar o Mercosul se o candidato de esquerda vencer e decidir “fechar a economia” para o comércio internacional.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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