A capacidade inesgotável que Sérgio Moro tem demonstrado de engolir sapos

Presidente quer demitir diretor da Polícia Federal e Moro ameaça pedir demissão. Foto - Alan Santos - Presidência da República

Bolsonaro e Moro, fim da aliança, foto - Alan Santos - Presidência da República

Ministro mais popular do governo, Sérgio Moro, que volta a andar na corda bamba, tem demonstrado, desde que deixou a magistratura para ocupar lugar de destaque no Planalto, uma grande capacidade de engolir sapos. Ontem reagiu e parece não estar disposto a digerir mais um, todos empurrados goela abaixo pelo presidente Jair Bolsonaro.

Ao ser informado ontem pelo presidente que o diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, seria demitido, Moro teria pedido demissão e disse que só permanecerá ministro se seu subordinado ficar ou se ele puder indicar alguém para o lugar.

Mas em pouco mais de um ano no cargo, foram vários os sapos que o ministro Moro teve que engolir. Os mais constrangedores: logo no início do governo, foi desautorizado pelo presidente, que o obrigou a demitir a cientista política Ilona Szabó do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, para o qual já estava nomeada.

No decreto das armas, de janeiro do ano passado, sugeriu ao presidente que limitasse o registro de duas armas por pessoa. Teve sua sugestão ignorada pelo chefe, que fixou o número em quatro.

Antes de assumir o cargo, Moro negociou com Bolsonaro que ficaria com o controle do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão fundamental no combate ao crime de lavagem de dinheiro. Na reforma administrativa que enviou ao Congresso, entretanto, o presidente devolveu o órgão para o Ministério da Economia. O Coaf hoje está no Banco Central e o indicado por Moro para a sua chefia foi demitido.

Vetos negados

O pacote anticrime que ministro da Justiça apresentou ao Congresso no ano passado foi completamente alterado. Ele recomendou, então, que o presidente Bolsonaro vetasse 38 pontos da proposta aprovada. Mas Bolsonaro só vetou cinco das sugestões de Moro, sendo uma delas parcialmente.

Além de não ter conseguido aprovar a prisão após condenação em segunda instância, ficou sem o “excludente de ilicitude”, que os especialistas chamaram de licença para matar, pois isentaria de punição policiais que matassem em serviço.

Junto com o pacote anticrime, o Congresso aprovou a criação do chamado juiz de garantias, que prevê a divisão de processos penais entre dois juízes. Moro se posicionou terminantemente contra a proposta e esperava que ela fosse vetada pelo presidente, que preferiu mantê-la.

O presidente já confessou que prometeu a Sérgio Moro uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), uma espécie de prêmio pelo fato de ele ter desistido da carreira de juiz para assumir o ministério. Recuou, negou o combinado e disse ainda que pretende indicar para a Suprema Corte alguém “terrivelmente evangélico”. Não é o perfil de Moro.

No início deste ano, talvez incomodado pelos índices de popularidade que seu ministro passou a exibir, Jair Bolsonaro tentou tirar poder de Moro. Quis recriar o Ministério da Segurança Pública, hoje na Justiça, que passaria a comandar a Polícia Federal. Diante da ameaça do ministro de pedir o boné, o presidente recuou.

Mas o presidente volta à carga e retoma agora, ao que parece com bastante vontade, a ideia de demitir Valeixo da Polícia Federal, que foi escolhido por Moro. A ver nas próximas horas se o ministro vai resistir em sorver mais esse prato indigesto.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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