Cenibra encarou Covid e teve recorde; pecou no financeiro

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  • por | publicado: 30/04/2021 - 11:47

Fabrica da Cenibra bateu recordes de produção e venda de celulose pelo segundo ano consecutivo- Foto: Arquivo CS/Cenibra

A Celulose Nipo-Brasileira (Cenibra), de Belo Oriente, produziu 1,273 milhão de toneladas (1.273.282 t) de celulose branqueada de fibra de eucalipto, em 2020. Portanto, bateu recorde em plena recessão global da pandemia do novo coronavírus (Covid-19). O desempenho foi puxado principalmente pela pressão de demanda dos fabricantes de papéis sanitários. O segmento respondeu por 54% dos volumes despachados.

Mas, houve também sinais de recuperação da economia mundial no final do exercício. O relatório anual da diretoria destaca, todavia, que valeu também o fato de muitos mercados classificarem o segmento de papel entre as atividades essenciais. A fábrica da companhia está em Belo Oriente (MG).

Outro sentimento destacado pelos executivos aos acionistas (100% do Japão) foi uma produção acima do programado, e 3% a mais que 2019. Portanto, segundo recorde consecutivo. Além do tratamento excepcional dentro da pandemia, o relatório pontua como muito positiva a decisão de não paralisar a fábrica para manutenção dos equipamentos.

Em valor, as vendas líquidas, de R$ 2,819 bilhões, representaram crescimento de 8% nominais (sem descontar a inflação). Esse patamar foi resultado do maior volume (1,273 milhão t) de celulose embarcada e variação cambial elevada nos contratos. A China, em particular, puxou com peso os contratos no final de 2020.

Na origem, joint venture CVRD-JBP

A Cenibra foi inaugurada em setembro de 1977 como resultado de joint venture entre estatal Cia. Vale do Rio Doce (CVRD – atual Vale S.A.) e a JBP (Japan Brasil Paper and Pulp Resource Development Co Ltd – pool de empresas japonesas). Mas, em 2021, já privatizada, a CVRD, agora Vale S.A., vendeu sua parte aos sócios. A Cenibra é uma controlada da Oji Holding.

Geração de caixa estável

Antes dos pagamentos dos imposto, a Cenibra contabilizou significativa geração de caixa (EBITDA ajustado) para seus negócios, de R$ 1,115 bilhão – 2,5% inferior a 2019. Os contratos no exterior abocanharam 98% da produção. Portanto, com pagamentos em dólar. Ou seja, teve variação cambial (desvalorização disparada do real) favorável no caixa.

Mas fechou 2020 com prejuízo

Mas, se acertou na postura operacional, a Cenibra deixou a desejar em tópicos das decisões financeiras.

Apesar do mercado puxar para cima produção e venda, ajustes nos custos de produção e variação cambial soprarem favoravelmente, a multinacional japonesa fechou o balanço no vermelho. Lançou, portanto, prejuízo líquido de R$ 164,8 milhões no balanço patrimonial. Foi, por conseguinte, adverso ao lucro de R$ 552,8 milhões no exercício fiscal de 2019.

Os diretores justificaram assim: “… reflexo, principalmente, do ajuste ao valor justo do ativo biológico (florestas de eucaliptos) e efeitos da moeda funcional”. Como assim, da moeda funcional, com 98% dos contratos de vendas em dólar norte-americano?

Além disso, o ajuste nos ativos biológicos (cultivo e plantio de eucaliptos – ver adiante) foi quase residual, de 3,5% e fechou a rubrica, em 31 de dezembro, em R$ 1,478 bilhão. O patrimônio líquido, porém, aparece no balanço com variação positiva de 8%, indo para R$ 5,307 bilhões.

Cenibra manteve dividendos

Todavia, o próprio relatório da diretoria aos acionistas deixa clara a opção dos donos em privilegiar pagamentos de dividendos – remessa de recursos para foram do Brasil, em plena crise global. Ou seja, deixaram de capitalizar a companhia. Como consequência, o caixa da Cenibra liberou R$ 866 milhões aos acionistas a título de dividendos e juros sobre o capital próprio.

Quebra de 56% no caixa

Os dividendos e juros entregues aos acionistas, portanto, impuseram no caixa e equivalentes redução de 56%, na comparação com 31 de dezembro de 2019. No balanço, foi lançado, então, saldo de R$ 417 milhões.

“Apesar dos desafios intrínsecos da cadeia logística, sob a óptica de estratégia de vendas, foi possível administrar importantes volumes em mercados de melhor retorno financeiro”, relataram os diretores da Cenibra. Os executivos asseguram, então, que souberam gerenciar adversidade e minimizar impactos para os clientes, tanto no país quanto no exterior.

Vendas por segmentos

As vendas de celulose da Cenibra, em 2020, apresentaram o seguinte perfil por fabricantes de papéis:

  • sanitários: 54;
  • papéis especiais: 35%;
  • papéis para imprimir e escrever: 8%; e
  • papéis para embalagem: 3%.

Comportamento do mercado global

O mercado mundial de celulose cresceu 8,5% (Fonte: MPM Brian McClay Pulp and Paper Products Council). Outras empresas também conseguiram manter ritmos de 2019. No relatório, a Cenibra informa que o comportamento, em termos de crescimento, dos mercados por região econômica foi o seguinte:

  • América do Norte, 15,7%;
  • Ásia, sem o Japão, 14,1%;
  • Oceania e África, 13%;
  • América Latina, 11,1%;
  • Japão, 4,3%; e,
  • Europa, redução de 4%.
Dos maciços florestais próprios, a Cenibra extraiu 84% da madeira processada. A foto mostra uma área de reserva ambiental – Foto: Arquivo CS/Cenibra

Investimentos

Em 2020, a Cenibra realizou investimentos de R$ 352 milhões. Destacados: formação florestal, renovação equipamentos florestal para colheita, novo aterro industrial, modernização do Sistema Digital de Controle Distribuído (SDCD).

Madeira cortada e área florestal

Em 2020, a Cenibra recebeu na fábrica 5,19 milhões de m3 de madeira, sendo 84% de maciços florestais próprios. Os 16% restantes de fornecedores com florestadas plantadas dentro do Programa Fomento Florestal para Produtor Rural.

122 mil ha de florestas

A empresa tinha, em fins de 2020, 122,1 mil hectares plantados – excluídas áreas de preservação permanente (APP) e de reserva legal (RL). No total dos ativos imobilizados, de R$ 2,830 bilhões, terrenos da empresa somavam R$ 374,2 milhões.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.