Conab impõe “apagão” no estoque de passagem do café

  • por | publicado: 14/10/2021 - 03:11 | atualizado: 15/10/2021 - 13:06

Geadas de julho queimaram as lavouras no Sul de Minas - Foto Reprodução/ Publicação Emater-MG

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) descumpre e função prevista em lei, a da informação do “estoque de passagem”. Isso contribui, portanto, para avolumar especulações na esteira dos estragos das geadas de julho para a cafeicultura e dificultar decisões entre cafeicultores. E, claro, facilita avanços de países concorrentes como o Vietnã.

A lei 1.891/1991 obriga a Conab, estatal vinculada ao Ministério da Agricultura, a divulgar o “estoque de passagem” de safra sempre com os números em 31/03 de cada ano. Não fez isto até hoje.

Na temporada das geadas de julho, muito se noticiou de expedientes na administração pública – União e Estados – e organismos da cadeia. No entanto, prevaleceu a desculpa da espera por dados definitivos dos “estragos” nas lavouras e bolso do cafeicultor. Ou seja, venceram as variantes das emoções, sem objetividade para o business da cadeia.

A Conab, em seu 1º boletim de “Acompanhamento da Safra Brasileira”, de janeiro, previa uma colheita entre 43,854 milhões e 49,588 milhões de sacas de café na safra 2020/21. A cultura é de desempenho bienal. E nesta, portanto, com redução de até entre 21,4% e 30,5%. Mas com outros fatores influenciando fortemente: estiagem e tratos culturais insatisfatórios. Para o tipo arábica, do qual Minas Gerais é maior produtor nacional, a Conab (estatal vinculada ao Ministério da Agricultura), projetava quebra seria de 32,4% a 39,1%, para 29,729 milhões a 32,990 milhões de sacas. No conilon, redução de 1,2% ou, até, aumento de 16%, ou seja, com variação para 14,134 milhões ou 16,598 milhões de sacas.

Conab prevê quebra menor

Entretanto, apesar dos estragos das geadas em cafezais de Minas, São Paulo e Paraná, o 3º boletim da Conab, em setembro (dados de agosto), trouxe projeções diferentes. A quebra, por exemplo, menor, de 25,7%, para 46,878 milhões de sacas. Veja AQUI. Mas, a realidade final, aparecerá no 4º boletim, de dezembro (dados de novembro).

Mas, no feriado nacional (religioso) de terça (12/10), veio, da Bolsa de Nova York, uma notícia que agradou a quem tem estoque. O blend de fatores. De um lado, a preocupação com a oferta, em cima do acidente climático de julho, no Brasil, e a decisão dos produtores da Colômbia, de não entregar o café vendido (espera de melhores preços). Do outro, chuvas em volumes positivos neste mês e baixa nos estoques nos portos dos Estados Unidos. O posicionamento colombiano representa algo como 1 milhão de sacas (10% da sua safra). Portanto, isso sustentou manteve a pressão positiva nas cotações pelo terceiro mês.

Resultado: contratos de café arábica subiram 4,5% num só dia, para US$ 213,75, com entrega em dezembro.

Procafé também endossa cobrança à Conab

ALÉM DO FATO ouviu, ontem (13/10), uma fonte alternativa nesse ambiente, que mescla vivência de mercado (produtor e ex-integrante de órgão gestor de política) e no desenvolvimento da melhoria genética e novas cultivares. O diretor-presidente da Fundação de Apoio à Tecnologia Cafeeira (Procafé), José Edgard Pinto Paiva, aponta uma linha racional, portanto, fora das emoções: “É importante o Brasil conhecer o estoque de passagem (da safra 2020/21 para 2021/22)”. Ou seja, saber quais eram os estoques em arábica e conilon em 31 de março, na entrada da nova safra. Pois, é ferramenta determinante na definição de escassez ou não do produto.

A ausência dessa informação, lamentou semana passada, em entrevista, o presidente do Conselho Nacional do Café (CNC), Silas Brasileiro, deixa produtores e cooperativas à mercê das especulativas do mercado. Ponderou que isso dificulta a tomada de decisão quanto ao melhor momento de ir ao mercado. Outra fonte, em off, pôs o bode na sala: “Mas as informações da Conab precisam ser confiáveis”.

Em fins de setembro, ou seja, após a divulgação do relatório da Conab, tradings negociavam com as tais informações especulativas. Apontavam possível estoque de passagem em 8,250 milhões de sacas (aproximadamente 3 meses do consumo interno brasileiro – julho/agosto/setembro – e 1 mês de exportação). Além disso, operavam com a hipótese de “replicar” aquele nos negócios como base de “passagem” para 2022/23.

USDA eleva previsão de consumo mundial

O estoque mundial de passagem, para 2021/22 foi estimado pelo USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), em 39,9 milhões de sacas. Na semana passada, a Organização Internacional do Café (OIC) estimou aumento no consumo mundial de café em mais 240 mil sacas, isto é, para 167,16 milhões. Com isso, o superavit menor, de R$ 2,63 milhões para 2,39 milhões de sacas. “Em armazéns do antigo IBC não tem café”, assegura José Edgard, oriundo daquela antiga autarquia.

Informação estratégica para políticas do café

O presidente da Procafé, com sede em Varginha, no Sul de Minas, põe, portanto, na ordem do dia questão prática. As informações dos estoques com exportadores, comerciantes internos e cooperativas de cafeicultores facilitam decisões políticas de curto e médio prazos. Principalmente em situações como esta, do pós-geada, que exigirão substituição e/ou decepadas de áreas afetadas e uma espera de resposta de três a quatro anos.

“Eu até admito, em opinião bem pessoal, que (estoque de passagem) deveria funcionar como uma informação sigilosa, estratégica para o Governo, em defesa da cafeicultura”, argumenta José Edgard. Ele teve presença importante no IBC, que era vinculado ao antigo Ministério da Indústria, Comércio e Turismo. O órgão federal administrou, por exemplo, os efeitos da geada que, em 1975, acabou com a lavoura do Paraná. O desastre natural entrou para literatura agrícola brasileira (pública e noticiário da imprensa) brasileira como a “Geada negra”.

Mas não basta ter em mãos o “estoque de passagem” como referencial para a retomada, por exemplo, em 2022. O presidente da Procafé salienta para urgência de consolidar políticas existentes, como a do seguro das lavouras. Isso não apenas para o café, mas toda lavoura, como nos Estados Unidos.

Selic inviabiliza crédito do Governo

No começo de setembro, com o setor ainda digerindo os estragos das geadas, José Edgard foi ouvido na Audiência Pública da Câmara. Na oportunidade, ele alertou para fuga de cafeicultores para culturas alternativas que já desenvolvem. No entanto, ao ALÉM DO FATO disse que isso não seria algo tão fácil. Um dos fatores, por exemplo, introduzir soja exige maquinário muito caro.

Em reprise de parte da conversa com os deputados, José Edgard disse que os cafeicultores somaram às geadas dois outros fatores. Primeiro, a estiagem prolongada de 2021. E, segundo, custos de manutenção das lavouras, de R$ 15 mil a R$ 20 mil por hectare. Lembrou que a taxa básica de juros do Banco Central, a Selic, vinha em 2% a 3%. E que, agora, em 6% a 7%, fica inviável assumir empréstimos de “socorro” do Governo. “Com o IBC, era de 3% ao ano, com três anos para pagar, sendo um de carência”, lembrou.

Aguardando pela ministra da Agricultura

A Procafé, por convite, participou de videoconferência com a cúpula do staf da ministra da Agricultura, Tereza Cristina Corrêa da Costa Dias. Isso foi antes da viagem dela à Itália, no final de setembro. Ela regressou com diagnóstico da Covi-19. José Edgard achou plausível não abrir por conteúdo da conversa. “Acredito que o Governo revelará”, ponderou.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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