Roscoe (Fiemg) mantém o bode na sala do Robson (CNI)

  • por | publicado: 17/12/2021 - 03:59 | atualizado: 31/12/2021 - 14:14

Bolsonaro surpreende negativamente microempresários, foto Sebastião Jacinto Júnior/Fiemg

Os conselheiros da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) reelegeram ontem (16/12), o atual presidente, Flávio Roscoe (Flávio Roscoe Nogueira) para o segundo mandato consecutivo. Ficará no cargo 2022-2025. Seria este mais um evento rotineiro no calendário das reeleições da entidade. Mas, não, desta vez. É que apodreceu a madeira da ponte com a Confederação Nacional das Indústrias (CNI), presidida por Robson Braga de Andrada. Este está no cargo desde 2010, portanto, ao sair do comando da Fiemg.

Robson Braga chegou ao topo da CNI na condição de delegado representante da federação de Minas.

Mais de uma década na cadeira

O cenário político no universo da indústria nacional, entretanto, mudou, a partir do 3º trimestre de 2020. Naquele momento, Robson Braga deu mais asas ao apego pelo cargo. Em junho deste ano, voou para o alongamento de mais um ano (até 30/10/2023) no atual mandato, que findaria em 2022. Assim, portanto, emplacará quase uma década e meia à frente da confederação.

O empresário mineiro fez o jogo político dos vizinhos, os do Congresso Nacional e Planalto: alterou estatuto. E o fez com apoio sólido das federações do Nordeste e Norte. As duas regiões, quando atuam em bloco, com voto fechado, fazem os presidentes da CNI.

Ficar por conta crise econômica

Do lado de fora dessa arena, o presidente da CNI desfraldou a sua bandeira. Disse, portanto, aos que influenciam o presidente Bolsonaro que seria bom para indústria sua permanência por mais um ano. Alegava em causa própria, então, que seria mais fácil articular as diretrizes, na indústria, para saída da crise na economia da Covid. Ou seja, um discurso, ao sabor dos políticos alinhados ao Poder. As bancadas de parlamentares do Nordeste exercem influências históricas nas federações de seus estados.

Negou o próprio projeto

Ainda em 2020, quando vazou a articulação, o próprio Robson Braga negou tais pretensões. Em entrevista ao jornal Valor, por exemplo, se declarou contrário à reeleição. “Eu saio em 30/10/2022. Acho que tem de ter alternância”. E foi, além disso, enfático ao negar articulações com as federações. “Nunca ouvi falar nisso. Não conversei com nenhum presidente sobre esse tema”. Reveja AQUI a entrevista publicada em 25/09/2020.

Federações rebeldes apanharam feio

As três maiores federações do Sudeste (Fiesp, Firjan e Fiemg), entretanto, apontaram golpe na atitude do presidente da CNI. Marcaram posição na Reunião Extraordinária do Conselho de Representantes da CNI de 25 de maio. No Conselho, somente delegados votam e podem ser votados. As federações rebeldes perderam.

E veio o segundo turno, em 29 de junho. Mas, foi terra arrasada: 23 federações, das 27, ficaram com Robson Braga.

Roscoe levou CNI para jornais e Justiça

Flávio Roscoe, entre os dois turnos, jogou com todas as fichas contra pretensões de Robson Braga. Primeiro, levou o embate para fora do ambiente da CNI. “Presidente da CNI usa engenharia para se perpetuar no poder, diz adversário”, publicou a Folha SP.

O presidente de federação de Minas ingressou com ação na Justiça. Entre várias “irregularidades”, apontou “burla à lei e ao próprio Estatuto da CNI”. E frisou que o Artigo 15 do Estatuto só reconhece como elegível delegado de federação. Robson Braga não é mais delegado da Fiemg. Já era Flávio Roscoe.

O juízo de Flávio Roscoe, portanto, é que o dirigente da CNI articulou para evitar a eleição de 2022.

“Se, por outro lado, não ostenta mais a condição de delegado representante, não pode mais ser votado para qualquer cargo eletivo na CNI. E, muito menos, permanecer no exercício do cargo pela via transversa da prorrogação”. Esse, portanto, um trecho nas sustentações da ação impetrada na 11ª Vara do Trabalho de Brasília, em 15/06. Além da “suspensão dos efeitos” das decisões da 1ª reunião, solicitava anulação na convocação da 2ª.

Teve o seu tempo

Todavia, o dirigente da Fiemg, na petição inicial, sem citar o que fora veiculado, contestou sustentação ao argumento de Robson Braga, na justificativa de dilatação do mandato. Isso porque à gestão de Robson restaria tempo mais que suficiente para demonstrar “competência”.

“Ou seja, nem mesmo na iminência de expirar se encontra o atual mandato do Presidente. E aqui vale esclarecer um ponto importante: o atual mandato do Presidente Robson Braga de Andrade se expira somente em outubro de 2022, ou seja, ainda distante 1 ano e 5 meses do seu término, tempo este suficiente para que qualquer questão atinente exclusivamente à esta diretoria se resolva. Do contrário há que se admitir que a diretoria não tem competência ou vontade de cumprir com suas obrigações no prazo que lhe foi concedido nas eleições, circunstância que antes justifica abreviar-lhe o mandato do que prorrogá-lo por qualquer prazo”.

Leia AQUI a íntegra da ação movida pela Fiemg contra a CNI, datada de 15/06.

Discurso ficará pelos corredores da CNI

Além da ação, Flávio Roscoe gravou vídeo. Um blend daquilo que foi remetido à Justiça do Trabalho com as acusações veiculadas na imprensa. Mas, no frigir dos ovos, até aqui, ficou assim: CNI não terá eleições em 2022.

Porém, Flávio Roscoe permanece com uma bala na agulha: Robson Braga não era mais delegado da Fiemg quando as demais federações (exceto RJ e SP) prorrogaram o mandato na CNI.

Depois de detido pela PF, homenageou Bolsonaro

Presidente da CNI, Robson Braga de Andrade, condecora Bolsonaro – Foto: Miguel Ângelo/CNI

A administração de Robson Braga, no âmbito dos gastos do Sistema S, foi alvo de investigação antes mesmo de Governo Bolsonaro completar 60 dias. Agentes da Polícia Federal, em 19 de fevereiro de 2019, o conduziram preso para depor.

O presidente da CNI, entretanto, recuperou a liberdade no mesmo dia. Todavia, margou afastamento do cargo por três meses (até 17 de maio). Nesse período, o Planalto tramou sua substituição em definitivo. Entretanto, fracassou.

De toda forma, Robson Braga não viu no episódio impeditivo para condecorar Bolsonaro. Em 11 de dezembro do mesmo ano, entregou, então, o Grande Colar da Ordem do Mérito Industrial, a mais alta condecoração da indústria brasileira.

Do almoço para comitiva no Oriente Médio

Em 30 de setembro, Bolsonaro almoçou na Fiemg. A entidade mescla críticas e simpatias com a política do Governo. Entretanto, mesmo com essa gangorra, o dirigente da federação integrou a comitiva presidencial na viagem (13 a 18 de novembro) aos Emirados Árabes Unidos (EAU) e Qatar.

Então, até outubro de 2023!…

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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