Aviso da Copasa provoca alta nas ações e desconfiança

  • por | publicado: 28/05/2020 - 01:26

Recentemente, o Governo de Minas fez comunicação e provocou alta nas ações da Copasa na Bolsa de Valores. Mas, empresas financeiras reagiram de forma negativa - Foto: Estação Rio Manso/Divulgação Copasa

Mais desconfiança que surpresa. Isso foi o que causou o comunicado do Governo de Minas sobre a venda Cia. de Saneamento de Minas Gerais (Copasa), pegando carona no noticiário envolvendo o Banco do Brasil. O Governo Romeu Zema mandou anunciar a autorização ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), para atuar na modelagem da privatização da Copasa.

Porém, a postura mineira vem colada na revelação de conversa do ministro da Economia, Paulo Guedes, de venda do BB. Isto foi na reunião ministerial de 22 abril, revelada na gravação de vídeo tornada pública por determinação do Supremo Tribunal Federal.

Mas, fato é que o comunicado, na terça (26/05), influenciou os negócios no mercado acionário. Ontem (27/05), portanto, os papéis da estatal subiram 6,45%, para R$ 59,72, na cotação da B3 (Bolsa, Brasil, Balcão). Houve, porém, negócios com ganhos bem acima: de até 13,8%. Além disso, influenciado ações da paulista Sabesp. Foram movimentados R$ 180 milhões com títulos da estatal mineira, cujo controle (50,04% das ações) do capital é do Governo de Minas.

Zema não tem apoio político

A surpresa das corretoras do mercado financeiro corre em duas raias. Primeira, pela impopularidade do governador Romeu Zena (Novo). Além disso, carece de apoio na Assembleia Legislativa de Minas para aprovar projeto de lei autorizativo de venda da estatal. E, segunda, porque, em meio à recessão mundial causada pela pandemia do novo coronavírus (Covid-19), não seria bom momento. Ou seja, dificilmente os ativos (R$ 11,7 bilhões, 31 de março 2020) da Copasa serão alienados a preço justo.

O valor de mercado da Copasa é de R$ 7,55 bilhões. No primeiro trimestre, o seu patrimônio líquido, de R$ 6,8 bilhões, teve elevação pouco expressiva (1,7%) em comparação com o primeiro trimestre de 2019.

Rothschild recebeu R$ 11,4 milhões

O Governo Zena informa que, via “Acordo de Cooperação Técnica”, de 5 de setembro de 2019, o Conselho Mineiro de Desestatização (CMD) “autorizou” o BNDES a identificar no mercado empresas que atuarão nos “serviços técnicos” com vistas à venda da estatal. Isso, portanto, envolvem modelagem de privatização e auditoria independente na Copasa.

Mas, em setembro de 2019, conforme noticiou ALÉM DO FATO (link abaixo) o Governo Zema contratou, por um ano, consultorias do grupo financeiro britânico Rothschild. A instituição britânica é conhecida nos negócios de fusões e privatizações, incluindo a Embraer. Com administração de Minas, o contrato foi via Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemge), para receber R$ 11,4 milhões.

Quem lucrou com ações da Copasa?

A consultoria XP observa que sem o marco regulatório para o setor de saneamento, divulgar privatização na área é, portanto, conversa jogada fora. Tudo seria, então, especulação, no entendimento da XP. A propósito dessa observação, cabe a pergunta: quem ganhou dinheiro, no pregão de ontem, com ações da Copasa?

O aspecto político, também foi pautado no Itaú BBA. Falta de apoio político de Zema dentro da Assembleia Legislativa, para mudar a Constituição de Minas, na parte que trata das estatais. Ele teria de cabalar de 60% 77 deputados. Aqui cabe outra lembrança: em março, o bloco do Governo era formado por três parlamentares, sendo que dois sempre votavam contra. E outra pergunta: será que deu um giro de 180 graus?

Mas, há um imbróglio com a Prefeitura de Belo Horizonte, seu principal mercado. O contrato da concessão do mercado reza que o serviço de saneamento básico da Capital só pode ser explorado por uma estatal.

O BTG Pactual está certo de que a pandemia da Covid-19 atrapalha qualquer perspectiva de bom negócio por agora. E, o Credit Suisse aposta que o marco regulatório do setor de saneamento poderá ser encaminhado ainda em junho.

Endividamento da Copasa diminuiu

A receita líquida da Copasa, nos trimestres comparados de 2019 e 2020, cresceu 5,6%, de R$ 1,280 bilhão. Porém, o lucro líquido registrou queda de 14%, de R$ 186 milhões para R$ 160 milhões. Mas, foi bem superior, de 37,1%, em relação ao 4º trimestre de 2019.

Além do fator pandemia da Covid-19, o lucro foi pressionado pela alta de 11,82%, na relação com o último período de 2019, no custo dos serviços prestados, que somaram R$ 706,97 milhões.

O endividamento bruto da empresa mineira de saneamento, de R$ 3,37 bilhões, encolheu 3,1%. Porém, no endividamento líquido, a redução foi bem acima, de 14,3%, para R$ 2,67 bilhões. A dívida externa, em 31 de março, era de US$ 25,6 milhões e € 44,7 milhões.

Comunicado da Copasa que, na resposta do Governo de Minas à consulta do ALÉM DO FATO, seria apenas um ensaio para “verificar possibilidades”.

“Verificar possibilidades”

ALÉM DO FATO solicitou à Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, entrevista com o chefe do CMD. A resposta foi: “Informamos que a atuação do BNDES trata-se de uma ampla análise de questões econômicas, ambientais, jurídicas e contratuais da Copasa, para verificar a real possibilidade de desestatização da empresa. É um processo de praxe junto ao BNDES, pré-condição para estudar qualquer projeto de privatização de uma estatal, razão pela qual o Governo de Minas autorizou o desenvolvimento do estudo”.

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