Huawei: Bolsonaro ignora pressões de Biden no 5G

  • por | publicado: 2/08/2021 - 15:54 | atualizado: 3/08/2021 - 21:07

Huawei está no Brasil há 23 anos. Algumas operadoras de telecomunicações dependem em até 100% da tecnologia da chinesa - Foto: Huawei /Divulgação , vista da unidade em Sorocaba (SP)

Huawei, gigante mundial na comunicação digital 5G, sobrevive, no país, aos descompassos do Governo Bolsonaro na política externa. E, de fora, às pressões vindas dos Estados Unidos. Por conta de agressões da família Bolsonaro, por exemplo, o Brasil equilibra no fio da navalha a política e as relações comerciais com a China. As commodities brasileiras dependem do mercado chinês, além de termos necessidade de entregas das vacinas contra Covid-19 pelo Governo de Pequim.

Mas, a diplomacia de Bolsonaro (decidida praticamente em conselho de família) é confusa, sem bússola. Ao mesmo em que ataca à China, não se curva aos EUA. Há tempos, então, Washington pressiona, sem sucesso, para Brasília fechar espaços à tecnologia da Huawei no seu programa 5G.

Na semana passada, por exemplo, o presidente dos EUA, Joe Biden, que assumiu em janeiro, determinou ao Brasil o banimento da Huawei na área 5G. O democrata Biden, nesse quesito, portanto, segue postura herdade do republicano Donald Trump.

Bolsonaro, assecla de Trump e sem apoio de Biden, manteve a coisa em banho-maria. Mas, apesar das confusas relações internacionais do chefe do Planalto, acaba de agregar mais peso à presença da Huawei. o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) habilitou a subsidiária Huawei do Brasil Telecomunicações Ltda à obtenção de “crédito de financiamento” em linhas do Governo.

No Brasil, a empresa apresentou ao Ministério da Economia, como sócios-administradores a Huawei Tech Inv. Co Ltd, de Hong Kong, e a Huawei Technologies (Netherlands) Bv, da Holanda.

Unidade digitais de armazenamento de dados

O Governo, via Portaria Sempi/MCTI Nº 5.025, da Secretaria de Empreendedorismo e Inovação (Sempi), cadastrou a fábrica da Huawei, em Sorocaba (SP), como “estabelecimento fabril” para fabricação, na área da tecnologia da informação e comunicação (TIC). Portanto, pode se candidatar ao leque de benefícios brasileiros.

A portaria, baixada dia 26 de julho, mas divulgada nesta segunda (02/08), enquadra assim: “I – Unidade digital de armazenamento de dados (“Intelligent Storage System”) baseado em meio Magnético; II – Unidade digital de armazenamento de dados (“Intelligent Storage System”) baseado em SSD (“Solid State Drive”)”.

Huawei terá de investir 4% da receita bruta

A Portaria Sempi/MCTI Nº 5.025, válida até 31 de dezembro de 2029, estipula, sob pena da perda dos benefícios creditícios, compromissos. Huwei está, porém, obrigada, por exemplo, a realizar investimentos com recursos próprios em P,D&I. “Parágrafo único. A pessoa jurídica habilitada, além de cumprir o processo produtivo básico, deverá investir, anualmente, no País, em atividades de pesquisa, desenvolvimento e inovação, no setor de tecnologias da informação e comunicação, o percentual mínimo de 4% sobre a base de cálculo formada pelo faturamento bruto no mercado interno, decorrente da comercialização do (s) bem (ns) relacionado (s) no art. 1º”. Os “bens” são as unidades digitais de armazenamento de dados.

Dimensão da ‘guerra’ EUA-China

Pelas boas práticas (abandonadas pelo Itamaraty nesta administração), o Brasil deveria, todavia, buscar a linha do equilíbrio com EUA e China. Entretanto, mesmo com a falta de rumos de Bolsonaro, é pouco provável que Biden consiga colocar o Brasil contra a Huawei.

No começo de julho, bem que a Casa Branca tentou. O recado foi que não aceitaria o DNA da chinesa no 5G do Brasil. Além do olho no filão do mercado mundial, os EUA acusam a China de espionagem tecnológica. Isso, portanto, com prejuízos econômicos e riscos aos sistemas financeiros e de segurança e dados pessoais.

Meng Whanzhou, CFO da Huawei, presa no Canadá – Foto: Huawei/Divulgação

Briga é por mercado de US$ 5 trilhões, em 2025

Os mercados de tecnologias e serviços móveis com 5G deverão girar, até 2025, US$ 5 trilhões (US$ 4,4 trilhões, em 2020) no PIB global, quando, então, responderão por 1/5 das conexões móveis. Além disso, para daqui a quatro anos duas em cada cinco pessoas terão acesso à rede 5G. Esses cálculos foram apresentados, em fins de junho, pela GSMA na abertura do Mobile Live World 2021, em Barcelona, na Espanha.

Esse affair teve desdobramentos nos limites dos nervos quando os EUA solicitaram ao Canadá extradição, para seu território, de Meng Whanzhou, de 48 anos. CFO (diretor geral-financeira) da Huawei e filha mais velha do fundador, Ren Zhengfei, ela foi presa no Canadá, em 1º de dezembro de 2018.

Meng Whanzhou é acusada, em tribunal canadense, de fraude e informação falsa ao HSBC no caso de relação da Huawei com empresa no Irã. Ela foi presa em conexão de voo Hong Kong-México e, portanto, Cumpre prisão domiciliar em Vancouver.

Em abril, último, por solicitação de seus advogados, a Justiça acolheu que as audiências finais sobre julgamento do pedido de extradição, formulado EUA, fossem adiadas para agosto. Portanto, este capítulo poderá ter desfecho neste mês.

A executiva ocupa uma mansão avaliada em US$ 4,2 milhões (Fonte: Bloomberg – janeiro/2019). É monitorada por tornozeleira com GPS.

Chinesa é dona dos 3G e 4G no Brasil

A Huawei, com centro em Sorocaba, é presente no mercado do Brasil há 23 anos. Está, portanto, entranhada nas tecnologias no 3G e 4G aplicadas no país. E, no conjunto das relações bilaterais do seu país com o Brasil, deve-se considerar a dependência das commodities minerais (principalmente minério de ferro exportado pelo Grupo da Vale S/A) e do agribusiness nas compras da China.

O tamanho da presença da Huawei nas telecomunicações, no país, segue duas informações. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), a reguladora do mercado, afirma que a chinesa abocanha de 35% a 40% das redes atuais. Entretanto, na ponta, as operadoras estimam que, dependendo da concessionária, vai de 45% a 100%.

A boa performance de Biden, principalmente ao apagar rastros de Trump, entretanto, ainda não foi suficiente contra Bolsonaro. Isso tudo, note-se bem, a despeito da sofrível forma de governar do ex-capitão do Exército.

Portanto, o Brasil de Bolsonaro, que tem como um das marcas a vida curta para tudo que anuncia, segue frustrando a expectativa dos EUA.

CIA deu a última cartada de Biden

A chamada “bala de prata” dos EUA para tentar curvar Bolsonaro é a ameaça a uma provável “revisão de investimentos” ou, até mesmo, bloqueio em acordos de cooperação. A Casa Branca, então, dará o bote contra o Brasil em duas frentes: defesa e inteligência. Isso foi dito, com todas as letras em maiúsculo, ao presidente Bolsonaro pelo diretor-geral da CIA (sigla em inglês para Agência Central de Inteligência), William J. Burns.

O encontro, em Brasília, foi no mês passado.

Operação casada com Centro de Inovação da Huawei

Mas, o novo grau conquistado pela Huawei, a habilitação dada pelo MCTI, não foi fato isolado. Também na semana passada, a companhia deu publicidade a um fato relevante na área de TIC.

A marca chinesa inaugurou, dia 27/07, em São Paulo, Capital, seu Centro de Inovação, batizado Ecosystem Innovation Technology Center (EITC). Informou que investiu R$ 35 milhões. E deu destaque: é o 1º o “primeiro Centro de Inovação para experimentação de 5G e Inteligência Artificial” de São Paulo. O Centro está no espaço da sede da subsidiária.

A Huawei, apresenta como marketing de simpatia que criou um “ambiente de inovação e integração para todo o ecossistema, que envolve não só as operadoras, como outros parceiros da indústria de TIC (Tecnologia de Informação e Comunicação)”. Portanto, em tese, começou a compartilhar tecnologia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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Antônio Carlos

Muito bem explicada esta situação, parabéns pela reportagem!

Rubem

Politiqueiro, rasteiro tendencioso, com adjetivos antigoverno em cada parágrafo para comunicar o fato positivo que o governo não se curvou a pressões. Jornalismo não é isto.