Bolsonaro, Mandetta, Zema ou Kalil: a quem devemos ouvir na pandemia?

Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (dir.) se fortalece politicamente por seu desempenho no combate ao coronavírus, mas desagrada o chefe Bolsonaro.

Bolsonaro e o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta: difícil diálogo, foto Sérgio Lima

Mais um fim de semana de estresse e divergências entre o ministro da Saúde, Luiz H. Mandetta, e o presidente Bolsonaro, na condução da pandemia do coronavírus. Manchetes dizem que o ministro teria perdido apoio da ala militar que o segurou no cargo até agora após críticas ao presidente. Enquanto isso, a escalada de mortes anunciadas já são mais de 1.300 no Brasil, em números oficiais.

Em entrevista à TV Globo, no domingo (12), Mandetta cobrou uma fala unificada do governo federal já que ele diz uma coisa e Bolsonaro faz outra oposta. Diante dessa dubiedade, o ministro reconheceu que o brasileiro fica confuso, não sabe se escuta a ele ou ao presidente. Além das conhecidas, surgiram novas divergências. Dar entrevista à Rede Globo é proibido e contraria orientação palaciana. Segunda, criticar o presidente pelos passeios e movimentações que contrariam as medidas de restrição adotadas pelo Ministério. Terceiro, a ousadia de cobrar alinhamento de Bolsonaro (discurso unificado).

Em Minas, também é assim

Situação semelhante temos aqui em Minas, pelo menos na Grande BH, onde vivem mais de 3 milhões de pessoas, com repercussão que irradia para todo o interior. As divergências entre o governador Romeu Zema (Novo) e o prefeito da maior cidade do Estado, Alexandre Kalil (PSD), e nas gestões de ambos. Zema disse, numa rede social, que o “vírus tem que viajar um pouco”.

Veja o que disse: “Se nós impedirmos ele totalmente, ele acaba deixando umas regiões sem estar infectadas, e amanhã vamos ter uma onda gigantesca nessa região. Então, o ideal é que ele se propague, mas devagar. A ausência total de propagação é ruim”, disse Zema, que, nessa semana, pretende discutir a flexibilização de medidas em 20 a 30% das cidades mineiras. Ele adiantou que essas cerca de 200 cidades teriam condições para isso, ou seja, tem poucos casos da doença.

Já a Prefeitura de BH, por meio de Kalil, insiste que a população deve ficar em casa. E mais, ainda proíbe a entrada de ônibus vindo de cidades que flexibilizaram as medidas de rigor adotadas até agora.

“Não siga a cabeça dos políticos”

Sobre a quem ouvir, o infectologista Unaí Tupinambás, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), tem uma boa recomendação. “Conclamo a população de Minas Gerais a seguir essas orientações (ficar em casa, lavar as mãos e usar máscara, quem precisar mesmo sair) e não seguir a cabeça de políticos. Nessa hora, eles têm nos atrapalhado bastante”, disse o médico, em vídeo no último sábado (11). Tupinambás também é membro dos comitês de enfrentamento da Coronavírus da UFMG e da Prefeitura da capital.

Tupinambás assegurou que só existem dois caminhos a serem seguidos. Um deles, segundo o médico, é o da vida, como fez a província chinesa de Wuhan, onde o vírus apareceu primeiro. Graças à política de isolamento de sua população, de mais de 11 milhões de habitantes, o Coronavírus foi controlado, e a vida lá começa a voltar ao normal.

“Lá eles optaram pela vida: fizeram o isolamento social, lavação de mãos, testagem, abriram dois hospitais com mil leitos cada e venceram a epidemia”, assinalou Tupinambás.

O outro caminho, segundo o infectologista, é o da morte. “É o caminho da catástrofe, feito no Norte da Itália, com abertura do comércio, sem isolamento social. Em Milão, por exemplo, o prefeito teve que vir a público pedir desculpas por ter escolhido o caminho errado. Então, temos esses dois caminhos: o da vida e o da morte”, advertiu.

The Guardian e The Economist criticam Bolsonaro

Também no domingo (12), o diário britânico “The Guardian” voltou a criticar o posicionamento de Jair Bolsonaro. Em meio à pandemia do novo coronavírus, afirmou que o presidente “está arrastando o Brasil para uma calamidade”. Veja mais: “Bolsonaro é um dos quatro líderes mundiais que ainda subestima a ameaça do coronavírus à saúde pública, ao lado dos presidentes autoritários da Nicarágua, Bielorrússia e Turquemenistão”, disse o trecho do texto publicado.

Na quinta passada (9), foi a vez de outra publicação britânica, The Economist, criticar o presidente brasileiro. Sob o título: “Jair Bolsonaro isolates himself, in the wrong way” (Jair Bolsonaro se isola de maneira errada), critica sua atuação no controle da doença. “A interferência de Jair Bolsonaro para minar esforços do seu próprio governo para conter o vírus pode marcar o início do fim de sua Presidência”, afirmou. A Economist já criticou outras vezes Bolsonaro e avalia que ele é apoiado por “um pequeno círculo de fanáticos ideológicos que incluem seus 3 filhos”.

Infectologista classifica como “criminosa e irresponsável” fala de Zema sobre vírus

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal UAI.

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